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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Será sempre um talvez


Ontem tive uma ideia enquanto temperava o frango para o jantar. Enquanto cortava a cebola, descascava o alho e espalhava a páprica sobre ele, pensei numa história que começaria assim:

“Ela é a humana, mas não foi a linguagem que a denunciou. Foi o motivo pelo qual ela coexistia.”.

A frase apareceu antes da história. Como algumas coisas aparecem antes de sabermos exatamente o que significam. Naquele momento, ainda não sabia quem era ela, nem onde estava, nem quais eram as circunstâncias que haviam levado aquela frase a existir. Sabia apenas que havia uma linguista diante de um problema que parecia impossível de resolver.

Ela trabalhava com quatro outros pesquisadores. Juntos, tentavam descobrir quais textos haviam sido produzidos por humanos e quais haviam sido produzidos por máquinas. Analisavam palavras, construções sintáticas, escolhas lexicais, pausas, respostas, padrões de interação. Também reviram protocolos, questionaram métodos, criaram novas hipóteses.

Cada possibilidade levantada por um deles era imediatamente discutida pelos outros. Algumas eram descartadas. Outras pareciam promissoras por alguns minutos, até que encontravam uma exceção. Todos procuravam uma marca, um sinal, uma falha. Algo que revelasse a presença humana no meio de tantas palavras organizadas, frases coerentes e parágrafos perfeitamente construídos. 

Enquanto os colegas discutiam as possibilidades, ela pensava em voltar para casa, nas tarefas que ainda precisava realizar, no encontro marcado com um amigo no sábado e em todas aquelas pequenas coisas que continuavam existindo mesmo enquanto ela tentava responder uma das perguntas mais difíceis daquele momento: como reconhecer um humano quando a escrita já não era uma prova suficientemente evidente? Ela estava em vários lugares ao mesmo tempo: no físico, no mental, na memória, na infância, na vida adulta. Como eu agora, como muitos de nós, talvez seja isso uma das formas mais humanas de habitar o mundo.

Ela terminou o turno do dia, voltou para a casa, foi preparar o jantar. Chegou em casa, abriu a porta, acariciou o gato, que fez “festinhas” e miou e a arranhou. Deitou a bolsa sobre a mesa, foi à cozinha, abriu a geladeira e pensou...

Durante muito tempo, procuramos uma assinatura. Acreditávamos que a autoria humana deveria aparecer como uma marca visível na superfície da escrita: uma escolha lexical incomum, uma construção sintática específica, uma imperfeição, uma hesitação mensurável, qualquer elemento capaz de separar aquilo que era produzido por uma pessoa daquilo que era produzido por uma máquina. Aos poucos, porém, estou inclinada a perceber que estávamos procurando no lugar errado. A humanidade não está em uma falha do texto, nem em uma característica isolada das frases, mas na incompletude do ser. 

Não havia uma impressão digital escondida entre as palavras. A autoria aparecia no gesto, no modo como a linguagem se voltava para o outro, naquilo que não possuía uma finalidade imediatamente instrumental, nos espaços entre uma resposta e outra, no motivo pelo qual alguém escolhia dizer algo. Não era a linguagem como código, nem a língua como estrutura, mas a linguagem como experiência, como relação, como lugar onde uma presença se revela, na coexistência.

Ela fechou a geladeira, pegou o celular, gravou esse fluxo de pensamento que precisava ser ordenado, afinal, o que pensamos agora se esvai como bolhas de sabão, levadas pelo vento. Perdera o tempo, o jantar ainda estava por fazer, ela se sentiu feliz, conseguiu, ainda que minimamente organizar um fluxo de pensamento, mas estava cansada. Pediu comida, comeu, deu aquela abaixada, sentou no sofá, foi escorregando para ajeitar a coluna, deixou o corpo se acomodar, fechou os olhos e adormeceu.

E voltando, depois dessa ideia, penso que talvez não fosse uma história ou um conto redondo. Aqueles que parecem nascer completos, organizados em começo, meio e fim, esperando apenas alguém que os escreva. Talvez fosse apenas uma ideia de texto que venho pensando em fragmentos: entre uma taça de vinho, a preparação do jantar, uma conversa com meus amigos, o afeto do gato e a instabilidade da vida. Talvez seja apenas isso: uma ideia habitada nesses entre-lugares.

Talvez, ainda, na hesitação, eu esteja inclinado a reconhecer que o efeito de humanidade possa, sim, ser simulado por marcações linguísticas, por interações padronizadas, por inteligência artificial. Ainda assim, uma frase impecável, do ponto de vista normativo, continua sendo uma frase, e uma resposta coerente continua sendo uma resposta. 

Embora, apesar disso e também por isso, em algum momento, quase sempre discreto, a escrita deixa escapar que exista alguém ali. Alguém que esquece, lembra, cozinha, cansa, adormece e continua existindo em vários lugares ao mesmo tempo. Talvez seja isso que ainda não consigo elaborar linearmente e, por isso, reduzo a percepção a uma única oração: o código nunca esgota aquilo que a escrita é capaz de carregar. Será sempre um talvez: incessante, incompleto, presente, vivido.

sábado, 31 de maio de 2025

Chá de jamaica

Hoje, enquanto a água começa a ferver e o aroma do hibisco sobe pela cozinha, volto para Quito. Volto para dezembro, para os dias frios e úmidos, para a mesa grande ao lado da janela.

Fui ao Equador para as festas de fim de ano. Estava animado por conhecer a família do Jordy — e também por estar num país de vulcões, céu azul recortado de montanhas, cheiro de fruta e café. Logo no começo, tudo me pareceu estranho e familiar ao mesmo tempo. Os pais, as tias e os tios, as primas — a família toda — me receberam como se já me conhecessem. Era fácil estar ali. Os hábitos se pareciam com os meus: cozinhar e conversar, rir enquanto se descasca algo, ouvir música entre o barulho de talheres e panelas.

A cozinha sempre foi um lugar especial para mim — e ali também parecia ser o coração da casa. Carmen, tia do Jordy, brincava com doçura diante do fogão. Preparava pratos com uma alegria tão espontânea que era impossível não sorrir junto. Ao lado dela, Vicky fazia bolachinhas e bolos de Natal. Eu ficava mais de lado, com um pouco de vergonha, mas atento. Às vezes ajudava, às vezes só olhava e ouvia.

A mãe do Jordy parecia um sol. Conduzia tudo com uma leveza firme, como quem organiza sem impor, como quem cuida sem alarde. Comecei a chamá-la de TAMARindo, assim, de carinho. Escrevendo assim parece literário demais, mas é um pouco. Afinal, é uma memória vivida, porém construída aqui, a dedilhadas no teclado do meu computador, enquanto a roupa está sendo lavada na máquina e espero a coxa de frango assar com legumes no forno.

Voltando. Passeamos de carro, conheci o bairro, fomos ao mercadinho, ao shopping e a um café, o Juan Valdez — uma marca colombiana que eu já conhecia e gosto muito. As ruas do bairro não são tão diferentes das daqui. No mercado, no shopping e também no café, há pessoas correndo, fazendo suas obrigações dezembrinas; há crianças que falam rápido e gritos de mães. Há cachorros nas ruas, gente nas bancas de frutas barganhando preços, muvucas natalinas e filas gigantescas no caixa. Quando voltávamos para casa, Carmencita estava na cozinha. Descarregávamos as compras, e eu ia até lá, ao lado dela, contar como foi o passeio — o que vi, o que achei interessante, as músicas que ouvimos no carro. Depois de algum tempo, eu já sabia de cor a playlist da TAMARindo.

Ali, o som das risadas na cozinha me fazia feliz. Indicava que a felicidade é invisível mesmo, mas, assim como o vento, é sentida por todos nós. Era como uma cócega prazerosa entre a barriga e o coração. Agora, relembro e penso: essa é uma memória rápida, uma passagem breve, um texto curto para tornar perene uma lembrança fugaz.

Naquele dia, o almoço ficou pronto, e todos se sentaram em seus lugares. Eu ajudei a arrumar a mesa — de madeira escura, imensa, posicionada ao lado de uma janela de vidro, onde a luz entrava devagarzinho. Lá, no balcão da cozinha, estava uma jarra grande de um líquido roxo. Carmencita trouxe a bebida para a mesa: chá de Jamaica. Um chá gelado, levemente azedinho. Bebi devagar, curioso. E gostei. Gostei tanto que comentei como era raro, para mim, tomar chá gelado com a comida. Aqui no Brasil, isso não é costume. Mas naquela casa, naquele momento, tudo fazia sentido.

E hoje, ao fazer o chá de hibisco para tomar no jantar, sinto um Quito aqui dentro. Volto ao riso, às vozes, ao sol fraco batendo no vidro. Les extraño a todos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Uma ansiedade sentida

Fui nascendo em você. Descobrindo lugares desconhecidos que passaram a se tornar comuns. A minha retina foi percebendo e se assustando, mas aos poucos fui me redescobrindo. Abri portinhas dentro de mim que pensava seladas. Elas estavam à espreita para serem empurradas, não estavam cerradas.

Quando estive ao seu lado, não conseguia perceber que a vida também passava sobre mim, o ar, o sol, a sombra estavam ali, mas você exercia um poder de atração tão pleno que o tempo se suspendia e eu somente mirava seus olhos fixos, seu cabelo preto, o seu sorriso largo.

Concordei em embarcar nessa aventura, essa que covardemente hesitei por algumas poucas vezes que me deram a oportunidade. Não sei explicar o motivo da minha coragem insensata, sabia que poderia cutucar as feridinhas do meu coração e talvez, novamente, elas pudessem sangrar.

Hoje me deparo novamente com aqueles sentimentos adormecidos e os desperto. Custa admitir que sinto e que me emociono. As árvores da rua que me acolhem com suas grandes folhas, seus grandes galhos, sua sombra fresca, seu manto acolhedor é hoje mais verde, mais feliz. Converso com elas, falo sobre a beleza da vida que pulsa dentro de mim por estar com você no pensamento.

Parece piegas demais concluir e afirmar tudo isso, mas não estaria eu sendo esse humano bobo e recheado de ilusão se não admitisse essas obviedades. Estou vivo, tremo, tenho medo e tenho vontade. Sinto, adormeço, velo e volto a adormecer.

Eu sou aquilo que sinto e não aquilo que aparento. Sinto a alegria, a tristeza, a vida, a intempérie, a ilusão, os planos. Sinto a ansiedade, o medo, a insegurança, a inércia, o cansaço. Aparento o equilíbrio, a sensatez, a palavra pausada. Entre o ser e o parecer vivo os dias úteis e os finais de semana como se fosse uma batalha diária. Gaguejo, recuo, cansado fico, exausto atuo.

Para o dia, me reservo o sol entre as nuvens e quem sabe uma chuvinha antes do entardecer. Para a noite, gostaria de estar entre seus braços morninhos e sentindo sua respiração bem acima da minha cabeça enquanto minhas orelhas aquecem sobre seu peito nu.

Porém, como a presença não é uma possibilidade exercito a imaginação e idealizo esse reencontro. Para o futuro espero, para o presente vivo.

Um beijinho e um par de abraços!

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

La pandemia sigue igual, matando los probres

 Hace casi un año que no vengo acá, pero hoy me dio la gana.

Sabes, la vida ha cambiado mucho desde entonces, por aquí todavía sigo el mismo, aunque me faltan algunos pelos en la cabeza, especialmente en la frente, ya tengo una frente amplia. Creo que esto hace parte del envejecer.

Estoy estudiando literatura, específicamente el siglo XVII español, pero leo cositas pocas del siglo XV y XVI. Para ti, que no estás acostumbrado con estas fechas, le digo que leo cosas de caballeros, amores imposibles, sobre justicia, amistades, honra, costumbres. Además, la percepción de esta literatura es distinta para nosotros, que vinimos después de los románticos. En esta época, antes del final del siglo XVIII y comienzo del XIX, la literatura se miraba con otros ojos, o sea, no tenía esta cosa de la ilusión de originalidad, de sentimiento del autor, pues muchos de ellos eran anónimos. Bueno, lo que quiero decir es que me está gustando aprender cosas que todavía no iba a ver si no estuviera aquí.

La pandemia sigue igual, matando los pobres y los que no pueden estar seguros en casa. El país va de mal a peor. Muchos cambios han ocurrido. Tenemos más hambre por las calles, personas sin dinero, sin empleo, mucha vulnerabilidad de la gente. Aún no he tomado la segunda dosis de la vacuna, ojalá que pronto la venga, ya la tengo listada para la segunda semana de septiembre.

Estoy viviendo en São Paulo, en la universidad y todavía no tengo arreglada mi rutina. Estoy como un niño, aprovechando todo a poquito. Descubriendo los caminos y mirando el día, calentando en el sol, sintiendo el frescor que la lluvia trae y acogiendo el día gris que pasa a cualquier uno.

Hoy terminé una lectura interesante, creo que te vas a gustar. Es una novela sentimental con característica epistolar. Se llama Cárcel de amor, quien la escribió fue Diego de San Pedro, puedes encontrarla fácilmente por internet, si quieres, en la RAE o en el sitio de Cervantes Virtual. También vi una película argentina de 2016, muy buena, llamada El ciudadano ilustre. Se habla de literatura, es sobre un escritor y sus hechos. Divertida, dramática, inteligente.

Bueno, no tengo mucho que escribir. Quisiera solamente venir y decirte algo. Aquí sigo, con pequeños fragmentos de mi vida. A partir de una perspectiva muy peculiar y recortada voy dándote algunos rasgos de una historia que todavía estoy escribiendo.

Saluditos, espero que no vemos pronto. Espero también que vuelva más por aquí.

Un abrazo y cuídate, no olvides de cuidarse.

Hasta pronto.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

De quando eu lia em voz alta

Fui convidado a servir um jovem senhor. As minhas obrigações se limitavam a ler para ele e ajudá-lo a se locomover em sua casa, algumas vezes seria possível que saíssemos dela, mas isso não foi combinado quando recebi o convite.

Não vou descrever aqui como era a casa desse senhor, tampouco o seu nome, pois poderá parecer para você, leitor curioso, que registro essa memória por vontade de provocar a sua bisbilhotice.

Não. Apenas escrevo para quando esquecer, venha aqui para lembrar. A memória é algo maravilhoso, que ninguém se dá conta, pois a tem e não percebe. A sua ausência também é prodigiosa, é como o vento, se vai e não nos damos conta. Quem se dá conta da sua ausência são os outros, esses mortais efêmeros que são incapazes de se reconhecerem na frente do espelho.

Quatro dias trabalhando com ele, já estava adaptado. A rotina era algo fácil, bem construída e sintética. Sabia o que deveria fazer sempre. Também não vou aqui enumerar o que fazia, mas como disse, era basicamente ler para ele.

Nunca cheguei naquela casa, depois de ultrapassar aquele portão grande de ferro preto, que o senhor não estivesse vestido, de banho tomado e penteado. Inicialmente, achei aquilo estranho, sempre chegava antes das 8h, mas depois entendi ou pelo menos me convenci da minha própria resposta para uma indagação idiota.

Pensei que, se eu acordando sempre no mesmo horário, tivesse que fazer aquelas coisas que você também faz, como escovar dentes, ir ao banheiro, tomar banho, colocar roupas limpas, beliscar um pão, e entre outras coisas banais; aquele senhor também fazia as suas.

Comecei a imaginar que ele também estava trabalhando, do seu jeito; como eu, ele tinha a sua rotina e eu era um estranho em seu trabalho, um tipo de servidor juvenil que aceitou, por desconhecimento e necessidade, esse tipo de trabalho incomum ao ser interrompido em uma esquina vendo uma vitrine da livraria de Avila.  

Era isso, parece que ele sofreu um acidente doméstico, se esqueceu que era velho e correu, saltou os degraus de uma escada no escuro; e juvenil que pensara arremeteu a cabeça em uma janela e dali sentiu a dor física que é sentida por todo mundo, velho ou jovem, a dor nos une.

Depois disso, quando ele se recuperou fui convidado a estar com ele. Antes disso, achava que sabia ler, mas nunca li tanto em voz alta. Quando isso acontece diariamente você percebe que não sabe ler e que ler é mais fácil quando não precisa emitir voz. Parece que lendo, só no cérebro é mais bonito, você não fica gaguejando, as mãos não suam, você não vê os sinais de pontuação, ou vê, mas não precisa fazer entonação, você faz isso automaticamente, no cérebro. Além disso, ler em voz alta requer outras práticas e até então eu não havia pensado.

Um dia, no começo, acho que era no terceiro dia ou no quarto, quando eu já estava me adaptando a rotina, ele fez uma cara estranha para a minha leitura matutina. Gelei! Claro, não sou idiota nem nada, sei que aquela leitura estava medonha, mas eu tentava fazer o melhor, juro! Quando observei a testa dele franzir, os olhos fechar, tive que perguntar se ele estava sentido dor.

Era muito inocente para fazer aquela pergunta, a dor era a minha voz que entrava em seus ouvidos e o martirizava. Acho que ele estava tentando se acostumar, mas deve ser difícil. Imagina você, ter que ficar comigo durante um dia inteiro ouvindo eu ler para você, coisa que você devia fazer melhor que eu. Foi horrível, dentro de mim senti muitas emoções.

Dentre essas emoções, não consigo escrevê-las todas, você sabe. As suas mãos suam, você se entristece, acha incompetente, inferiorizado, essas coisas que acontece quando a gente não sabe de nada.

Parei de ler e ouvi a sua voz, mas sem olhar pra ele, estava focado no livro. Ouvi a sua voz me perguntar qual era o meu nome, respondi imediatamente ninguém. Ele também respondeu rapidamente que ninguém é alguém e continuou dizendo que eu precisava ser exposto mais ao tempo. 

Juro que não entendi nada, até hoje me pergunto que raios respondi ninguém, o que é estar exposto ao tempo, que tempo? Exposto a quê? Mas segui lendo e o tempo foi passando.

Depois de um mês, indo naquela casa todos os dias, exceto nos sábados e domingos, comecei a ficar mais curioso, mas não me atrevia a perguntar coisas. Lembro que, naquela tarde na esquina, quando me convidaram para esse trabalho, me advertiram para não fazer perguntas.

Embora seria interessante saber o motivo daquele senhor estar ali, todo dia arrumado, penteado, de banho tomado e pronto para me ouvir fosse um mistério, as perguntas, que nasciam em minha mente, eram sobre os textos que lia diariamente. 

Tinha muitas coisas ali que não sabia como eu lia. Logicamente você deve imaginar como eu lia os nomes das pessoas estrangeiras, as cidades da Inglaterra, ou alguma passagem em outro idioma. Acho que essa era a parte mais divertida do dia, pois o senhor ria e pedia para eu repetir. 

No início fiquei constrangido, mas depois pensei que era bobagem, se eu não sei como ler aquilo eu não sei, e que mal há nisso? O primeiro nome que me lembro e mais engraçado até hoje foi: Rimbaud, depois Baudelaire.

Ah, a risada dele não era de deboche, acho que era só uma diversão mesmo, talvez quando ele lia, quando era possível, nunca tinha tocado nos seus ouvidos, ou na sua mente, aquelas palavras produzidas tão diferentes.

Por isso, acho que devemos encontrar prazer nas coisas que não reparamos. Aprendi que se olharmos bem ou pedirmos que outras pessoas nos contem sobre o que estão vendo, podemos nos divertir da mesma coisa banal que vemos todos os dias ou somente franzir a testa e pedir a ela que se exponha ao tempo.

Hoje me lembrei disso, por isso escrevo, para que essa tinta (virtual) perene preserve esse rastro da minha memória ainda não esquecida.