Ontem tive uma ideia enquanto temperava o frango para o jantar. Enquanto cortava a cebola, descascava o alho e espalhava a páprica sobre ele, pensei numa história que começaria assim:
“Ela é a humana, mas não foi a linguagem que a denunciou. Foi o motivo
pelo qual ela coexistia.”.
A frase apareceu antes da história. Como algumas coisas aparecem antes
de sabermos exatamente o que significam. Naquele momento, ainda não sabia quem
era ela, nem onde estava, nem quais eram as circunstâncias que haviam levado
aquela frase a existir. Sabia apenas que havia uma linguista diante de um
problema que parecia impossível de resolver.
Ela trabalhava com quatro outros pesquisadores. Juntos, tentavam
descobrir quais textos haviam sido produzidos por humanos e quais haviam sido
produzidos por máquinas. Analisavam palavras, construções sintáticas, escolhas
lexicais, pausas, respostas, padrões de interação. Também reviram protocolos,
questionaram métodos, criaram novas hipóteses.
Cada possibilidade levantada por um deles era imediatamente discutida pelos outros. Algumas eram descartadas. Outras pareciam promissoras por alguns minutos, até que encontravam uma exceção. Todos procuravam uma marca, um sinal, uma falha. Algo que revelasse a presença humana no meio de tantas palavras organizadas, frases coerentes e parágrafos perfeitamente construídos.
Enquanto os colegas discutiam as possibilidades, ela pensava em voltar para casa, nas tarefas que ainda precisava realizar, no encontro marcado com um amigo no sábado e em todas aquelas pequenas coisas que continuavam existindo mesmo enquanto ela tentava responder uma das perguntas mais difíceis daquele momento: como reconhecer um humano quando a escrita já não era uma prova suficientemente evidente? Ela estava em vários lugares ao mesmo tempo: no físico, no mental, na memória, na infância, na vida adulta. Como eu agora, como muitos de nós, talvez seja isso uma das formas mais humanas de habitar o mundo.
Ela terminou o turno do dia, voltou para a casa, foi preparar o jantar.
Chegou em casa, abriu a porta, acariciou o gato, que fez “festinhas” e miou e a
arranhou. Deitou a bolsa sobre a mesa, foi à cozinha, abriu a geladeira e
pensou...
Durante muito tempo, procuramos uma assinatura. Acreditávamos que a autoria humana deveria aparecer como uma marca visível na superfície da escrita: uma escolha lexical incomum, uma construção sintática específica, uma imperfeição, uma hesitação mensurável, qualquer elemento capaz de separar aquilo que era produzido por uma pessoa daquilo que era produzido por uma máquina. Aos poucos, porém, estou inclinada a perceber que estávamos procurando no lugar errado. A humanidade não está em uma falha do texto, nem em uma característica isolada das frases, mas na incompletude do ser.
Não havia uma impressão digital
escondida entre as palavras. A autoria aparecia no gesto, no modo como a
linguagem se voltava para o outro, naquilo que não possuía uma finalidade
imediatamente instrumental, nos espaços entre uma resposta e outra, no motivo
pelo qual alguém escolhia dizer algo. Não era a linguagem como código, nem a
língua como estrutura, mas a linguagem como experiência, como relação, como
lugar onde uma presença se revela, na coexistência.
Ela fechou a geladeira, pegou o celular, gravou esse fluxo de pensamento
que precisava ser ordenado, afinal, o que pensamos agora se esvai como bolhas
de sabão, levadas pelo vento. Perdera o tempo, o jantar ainda estava por fazer,
ela se sentiu feliz, conseguiu, ainda que minimamente organizar um fluxo de
pensamento, mas estava cansada. Pediu comida, comeu, deu aquela abaixada, sentou no
sofá, foi escorregando para ajeitar a coluna, deixou o corpo se acomodar, fechou
os olhos e adormeceu.
E voltando, depois dessa ideia, penso que talvez não fosse uma história
ou um conto redondo. Aqueles que parecem nascer completos, organizados em
começo, meio e fim, esperando apenas alguém que os escreva. Talvez fosse apenas
uma ideia de texto que venho pensando em fragmentos: entre uma taça de vinho, a
preparação do jantar, uma conversa com meus amigos, o afeto do gato e a instabilidade
da vida. Talvez seja apenas isso: uma ideia habitada nesses entre-lugares.
Talvez, ainda, na hesitação, eu esteja inclinado a reconhecer que o efeito de humanidade possa, sim, ser simulado por marcações linguísticas, por interações padronizadas, por inteligência artificial. Ainda assim, uma frase impecável, do ponto de vista normativo, continua sendo uma frase, e uma resposta coerente continua sendo uma resposta.
Embora, apesar disso e também por isso, em algum momento, quase sempre discreto, a escrita deixa escapar que
exista alguém ali. Alguém que esquece, lembra, cozinha, cansa, adormece e
continua existindo em vários lugares ao mesmo tempo. Talvez seja isso que ainda
não consigo elaborar linearmente e, por isso, reduzo a percepção a uma única oração: o
código nunca esgota aquilo que a escrita é capaz de carregar. Será sempre um
talvez: incessante, incompleto, presente, vivido.

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