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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Efêmero


Eu acho que estou ficando louco. Eu estou pensando mais em você do que poderia dizer que é comum. Talvez seja porque eu me simpatizei por você e é involuntário eu sentir algumas coisas e postergar outras. Talvez eu esteja imaginando essas coisas e gostaria de ser sincero. Eu acho que talvez seja precoce dizer isso, mas eu já conheço esse caminho, passei por eles algumas vezes. Quando você diz...
Tanto faz, o faz brincadeiras que eu nao conheço, eu fico estranho.
Eu talvez nem saiba se isso é uma brincadeira.
Quando eu perguntei se você quer continuar me vendo, eu também perguntei se vamos continuar nos vendo pessoalmente.
Gostaria de saber se você pensa em mim, ou se está passando como algo efêmero. Gostaria que você me falasse, porque eu ainda não entendi. Ainda que me apeteçam as coisas ocultas, as explícitas me volta a razão e delas eu me conforto. Que se distancie logo essa dor com cara de felicidade.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Beijos




Era uma noite agradável, véspera de feriado e meus amigos e eu saimos para dançar. Eu não imaginava que lhe encontraria, tampouco imaginava que seria tão prazeroso. O bar estava se enchendo e eu já estava empolgado por estar ali com eles, dançando aquelas músicas que fazem o corpo da gente se agitar e bebendo caipirinha de limão. Como é comum, sempre observo as pessoas que estão ao meu redor e ali, a poucos metros, você estava dançando, curtindo a música de olhos fechados e pernas saltitantes. Aproximei de você, e acredito que nem fui percebido, fiquei na sua frente e você ainda nem me observava. Nessas horas pensamos coisas óbvias: “Será que estou atraente, sou bonito, vou levar um fora, e se não der certo”. Fiquei ali dançando durante duas ou três músicas, prefiro acreditar que a vergonha lhe assaltou de supetão e você não conseguia se desvencilhar dela, tentando me nutrir de coragem para chegar até você e começar a conversar. Na esperança desse pensamento eu me atrevi a tocar você. Com um tímido toque no braço eu acerquei do seu ouvido e perguntei: “Oi, qual é o seu nome?” confesso que nada entendi, porém fiz uma cara que entendi perfeitamente. Continuei dançando, procurando perceber alguma inclinação sua ao meu respeito, eu não a encontrei.

Um pouco depois e ainda ansioso eu pensei, vou perguntar, se não der certo eu saio daqui e vou dançar em outra parte. Acerquei-me novamente, sorri e perguntei: “Rola um beijo?”.
Para minha surpresa você consentiu e nos beijamos. E esse foi o nosso primeiro beijo, dos outros que seguiram me lembro das risadas entre eles, do seu senso de humor peculiar e da sua agradável simpatia.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Manhã de Quinta-feira



Escrevo a você com a vontade de lhe falar aos olhos, porém careço de coragem e o maior grau de valentia que disponho resiste a essas poucas linhas. A manhã dessa quinta-feira estava cinza, grandes nuvens cobriam a minha janela e através dela eu observava a rua se enchendo. Despertei como uma anagrama, como desenhos mal feitos de cadernos infantis, meio agitado, inquieto. Esquentei um pouco de leite, enchi uma caneca de louça e parei em frente a janela para dar boas vindas ao sol que chegaria alí por volta das seis. É voluntário o meu desejo de amanhecer ao seu lado, de sentir o seu coração encostado ao meu, batendo em ritmos diferentes. Sinto saudades suas e é sobre esse sentimento que descansam os meus desejos que são alimentados pelo silêncio cotidiano que recheia esse meu dia.
Poderia você perceber como na natureza nada é igual? É perceptível que as coisas iguais são de natureza humana. Veja que somos parte de um universo grandioso e singular, cada qual distinto entre si. Pensando nisso lhe peço que não me julgue, não busque alguém como reflexo, por que não há de encontrar. Comprometa-se a aceitar a diferença. Sou um desses seres imperfeitos, um ser que aprende a arte de amar, amando, que sabe por prática e não por teoria. E hoje a minha alegria sente falta do seu sorriso e todas essas lembranças vão tecendo dentro de mim uma experiência que não quero me afastar. Por aqui a sua lembrança rouba o meu dia e a concentração se afastou de mim. Pode, por favor, pedi-la que volte?

Não precisa mudar,
Vou me adaptar ao seu jeito,
Seus costumes, seus defeitos,
Seus ciúmes, suas caras,
Pra que mudá-las?

Não precisa mudar,
Vou saber fazer o seu jogo.
Fazer tudo do seu gosto
Sem guardar nenhuma mágoa,
Sem cobrar nada.

Se eu sei que no final fica tudo bem.
A gente se ajeita numa cama pequena,
Te faço poema, te cubro de amor
.

Então você adormece
Meu coração enobrece
E a gente sempre se esquece
De tudo que passou.
(Não precisa mudar - Ivete & Saulo)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Para atravessar Agosto


Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro — e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros angúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções — úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade… Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu — sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques — tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas — coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.

(“Para atravessar Agosto”. Caio Fernando Loureiro de Abreu, 1948-1996. Crônica publicada no jornal O Estado de São Paulo em 6 de agosto de 1995)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Perdi



Por aqui amanheceu um dia nublado sob um sol preguiçoso e um vento caprichado. Faz frio e as pessoas caminham pelas ruas agasalhadas com a finalidade de se proteger, eu tento me desvencilhar desse sentimento que me entristece temporariamente. São elementos comuns ao ser humano, poucas palavras, simples situações, desiluções amorosas tão inerente à nos. Fico feliz por analisar essas relações e perceber que há um lado positivo, ainda que eu permaneça descontente. Poderia escrever como é suave o seu sorriso ao me cumprimentar, de como seria o futuro se me aceitasse, porém racionalmente eu entendo como me custa esquecer você. Nessa vida, tudo tem uma razão, embora eu não saiba instantaneamente essa, eu confio nessa palavra: “Tudo tem o seu tempo, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”. Vou praticar os conselhos dos poetas, escrever um pouco, externar essa emoção efêmera. É difícil acreditar que com o passar dos dias eu esquecerei desse sentimento que você, agora, conhece tão bem. Sou daqueles que se simpatizam pela conversa informal, das palavras diretas, das coisas compreendidas facilmente, descomplicadas. Obrigado por me satisfazer e dizer um não rápido e direto, encerrando assim as minhas ambições imaginárias. E parece que sempre quando estamos assim, sentindo assim, temos as músicas certas para nos ajudar, eu tenho essa:

“Eu me perdi, perdi você, perdi a voz, o seu querer.
Agora sou somente um, longe de nós um ser comum.
Agora sou um vento só, a escuridão, eu virei pó, fotografia, sou lembrança do passado.
Agora sou a prova viva de que nada nessa vida é pra sempre até que prove o contrário.
Estar assim, sentir assim, um turbilhão de sensações dentro de mim.
Eu amanheço, eu estremeço, eu enlouqueço, eu te cavalgo embaixo do cair da chuva eu reconheço: Estar assim, sentir assim, um turbilhão de sensações dentro de mim.
Eu me aqueço, eu endureço
Eu me derreto, eu evaporo
Eu caio em forma de chuva eu reconheço: Eu me transformo”. (Paula Fernandes - Sensações)