Às vezes eu penso em você e imagino o nosso
futuro. Tudo ilusão! Não mais toco os seus cabelos, tampouco beijos seus lábios.
Sinto sua falta, mas você nem sabe. O tempo passou, já foi uma primavera, as
festas de fim de ano, você se foi com um pedacinho de mim.
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
As músicas me trouxeram aqui
As horas pintavam o passado
cada vez mais veloz, a janela aberta balançava a cortina que dançava ao som de Je reste la même de Annabelle Mouloudji.
Era tarde de uma noite fria, mesmo assim ela deixava o vento noturno roçar em
sua pele eriçada. Desliguei a luz da sala e continuei ali, através da minha
janela, observando ela se despir, imaginei-a com um jeans e um salto alto,
estava com uma jaqueta preta que ao tirar reluzia, à luz da lua, uma
saboneteira alva. Imaginei-a dançar por aquela sala enquanto se mantinha
elegante e sedutora.
Liguei o abajur e se fez uma
luz indireta, mantinha a esperança de que ela me notasse, que acenasse para o
apartamento da frente. Estava pronto para retribuir com um sorriso e um gentil
movimento de sim com a cabeça. Continuei ali, e ela continuou a dançar, estava
feliz, parecia feliz. Eu costumava ser assim, calado sem coragem, não me
atrevia tampouco a acender a luz, pensei que ela poderia se aborrecer ou
encerrar aquele espetáculo tão prazeroso e bonito. Eu a queria e a observava.
Ela mudou de música, a noite
estava tão silenciosa, ou eu imaginativo, que escutava La quiero a morir de Shakira, era aquela versão que ela canta em
francês. “Que mulher fantástica”, pensei. A um piscar lento ela desapareceu, a
janela continuou aberta, a morena de cabelos longos ausentou-se, meu rosto se
entristeceu, minha consciência pesou, por pensar que, talvez, ela tivesse
percebido aquele atrevido observador.
Eu me lamentava, mirando apenas o meu assoalho
gasto de madeira quando ela ressurgiu, ainda mais feminina. Continuava a dançar
naquela sua sala escura, iluminada apenas pela luz daquela lua cheia que me
ajudava a ser o perfeito investigador, que percebia tudo, cada passo, cada
volta, cada sorriso.
Ela parou em frente à janela,
começou a observar a rua deserta e com um simples piscar ela olhou na minha
direção, eu ali, estático, acenou, eu não acreditei, acenou novamente, olhei
ridiculamente para trás, e sorri, retribuí o aceno. Ela desapareceu da janela.
Eu conscientemente pensei que ela chamaria a polícia, mas continuei ali. Ela
voltou, acendeu a luz da sala e me convenci que, sim, ela também me observava,
sorriu e mandou um beijo com as mãos, apagou a luz, fechou a janela, cerrou a
cortina e fiquei sentado até amanhecer, imaginando se tudo foi um sonho
maluco. Entendi que o que houve foi
apenas um episódio das músicas que me trouxeram aqui.
domingo, 3 de novembro de 2013
O importante é ser
Ele chegou suado, por correr daquela chuva torrencial.
Seus sapatos estavam molhados, grudado ao corpo, o uniforme encharcado parecia
mais uma segunda pele, mas nada parecia embaçar aquele seu sorriso. Tirou as
botinas, suas meias enlameadas e entrou em casa. Tomou banho, ajeitou o
cabelo, vestiu seu jeans, uma camiseta de manga curta vermelha e se abrigou
abaixo do guarda-chuva, para sair novamente à rua.
Naquela
noite ele estava atento a toda a iluminação pública, as janelas do bairro, ora
fechadas com cortinas enfeitadas por fitas e enfeites de pinheiro e azevinho,
ora abertas com o peitoril exibindo presépios e pequenas velas de natal,
casinhas iluminadas. Os pisca-piscas não faltavam, era de sua responsabilidade
dar o charme para aquela época do ano. Aquilo o enchia de alegria, voltou a ser
menino, era natal. Tocou a campanhia e aguardou, foi recebido com um grande
sorriso por uma senhora de cabelos grisalhos curtos, entrou pedindo licença.
-
Estou feliz por ter aceito o meu convite, Emanuel.
-
Estou feliz por ter me convidado, Clarice.
A
pequena casa estava iluminada por velas de mesa. Uma árvore de natal de um
pouco mais de um metro iluminava a sala dando um ar de achonchego e paz.
Clarice ouvia Vivaldi em uma vitrola de madeira.
-
Sente-se, fique à vontade, vou buscar uma taça de vinho para você. Enquanto
isso você poderia colocar esse disco que está sobre a mesa? Adoro as músicas
dele, é uma noite para desfrutarmos suas canções.
-
Claro!
Ele pegou o vinil
das mais lindas canções de natal, ergueu a agulha da vitrola, trocou o disco, e
começou alí jingle bells.
-
Espero que o peru esteja saboroso, - ela disse sorrindo. Testei uma nova
receita com ervas frescas, acredito que você vai gostar bastante.
Sentaram-se
a mesa e comeram. Depois do cafezinho, ele retirou os pratos, colocou-os sobre
a pia e se juntou a ela para voltarem a conversar.
- Como
foi o seu dia? Ainda tralhando no jardim da Carmen?
-
Terminei hoje, ficou muito bonito, sai de lá correndo e fui surpreendido no
caminho por aquela chuva, mas nada que um banho quente e esse convite não me
fizesse feliz novamente.
Ela
sorriu timidamente e continuou: - É evidente o seu cuidado e o seu gosto por aquilo
que você faz tão bem, com a sua ajuda eu consigo ter um jardim organizado e uma
horta sempre bem cuidada. Mas me conte, onde está a sua família?
Ele
ficou meio sem jeito com o elogio e surpreso por uma pergunta tão pessoal, mas
estava tão à vontade e respondeu tranquilamente: - Desconheço onde vivem, na
verdade não sei se tenho uma família, como todo mundo. Nasci em um orfanato e
aprendi o ofício de jardineiro lá, gosto de cuidar da terra, de fazê-la
produzir, isso me enche de alegria, trabalhar para mim é uma motivação. E você,
Clarice, tem algum motivo por viver aqui, sozinha? Onde está a sua família?
Clarice
se supreendeu com a pergunta, ergueu suas sobrancelhas, respirou e após uma
pequena pausa respondeu: - Ah, jovem! Às vezes isso acontece, as coisas mudam,
tudo que você acredita se vai e você tem que estar preparado para entender que
nada é para sempre e o que o faz continuar é a sua vontade de viver e a
sensação de produzir, de se sentir vivo. Eu vivo sozinha, mas não me sinto
solitária, pois encontrei aqui um refúgio, um recanto de paz. Admiro você pela
sua simplicidade e a maneira como você conduz a sua vida, você vai perceber que
isso é fudamental. Com o tempo você vai perceber o essencial para estar feliz
não é a sua posição social, seus bens materiais, as reuniões sociais, afinal
você encontra a felicidade diariamente, se tiver tempo para percebê-la. Estar
feliz é ter autoconhecimento, é saber o que te motiva, você será completo
quando se conhecer, quando o importante é ser e não ter.
Ele a ouvia
atentamente e quando deu meia noite, ela pediu licença, se levantou, pegou um
embrulho que estava embaixo da árvore e disse:
-
Emanuel, esse é seu presente!
Ele,
emocionado, sorriu, a abraçou e agradeceu: - Muito obrigado Clarice, sinto em
não ter nada a oferecer.
Ela
sorriu novamente, o olhou nos olhos e disse: - Querido, você me presenteia
sempre, o seu sorriso, a sua educação, seu cuidado e a sua amizade, são
presentes cotidianos, é a essência do ser, se lembra?
Os
dois sorriram juntos e aquela noite de natal foi espetacular para ambos que
fortaleceram os laços de amizade em uma noite muito propícia.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Como eu me lembro dela
Sabe aquelas pessoas de quem você chega perto e
se sente bem? Que desconhece e logo vira amigo e começa uma conversa entre
risadas e quando vê já amanheceu? Talvez você já tenha tido alguma experiência
assim, pois é, ela era assim. Cabelos castanhos curtos, com lóbulo colado e
marcada por cicatrizes de acnes que adquiriu na adolescência. Seu sorriso era
espontanêo e verdadeiro, tinha uma pinta na perna esquerda e suas sobrancelhas
eram ralas, seus olhos miúdos e sua boca, hmmm... apetecedora.
Gostava de gérberas e lantanas, seu perfume era frutal e não media mais que um metro e setenta. Conheci Jesse & Joy, Julieta Venegas, Bensé, Yiruma, Alexander Rybak e tantos outros cantores através do seu fone de ouvido. Descobri, que A festa de Babette, Immortal beloved, Big Fish, Miss Potter e Orgulho e Preconceito estavam entre seus filmes favoritos. Aprendeu tocar violino, porque se apaixonou pelo protagonista Andrea de Ladies in Lavender.
Tomava café sem açúcar e gostava de suco de caju, quando ofereciam doces a ela, pegava apenas um pedacinho, comia rápido e agradecia com um sorriso. A ouvi dizer que um quarto organizado com cheiro de lavanda, lençois e fronhas perfumadas com amaciante, pijama liso sem estampa a faziam feliz.
A última vez em que a vi era manhã de sol, vestia uma calça jeans azul, um sapato preto e uma camiseta básica branca, estava com seus olhos úmidos, porque o rímel que usava estava borrando seus olhos tristes. Cumprimentei-a com um bom dia e perguntei se estava tudo bem, ela sorriu com o canto da boca e disse, quase sussurrando: “agora sim”. Foi o último dia que a vi. Ela deixou as lantanas, que plantara na entrada do prédio solitárias, e no meu coração um vazio que até hoje não foi preenchido.
Gostava de gérberas e lantanas, seu perfume era frutal e não media mais que um metro e setenta. Conheci Jesse & Joy, Julieta Venegas, Bensé, Yiruma, Alexander Rybak e tantos outros cantores através do seu fone de ouvido. Descobri, que A festa de Babette, Immortal beloved, Big Fish, Miss Potter e Orgulho e Preconceito estavam entre seus filmes favoritos. Aprendeu tocar violino, porque se apaixonou pelo protagonista Andrea de Ladies in Lavender.
Tomava café sem açúcar e gostava de suco de caju, quando ofereciam doces a ela, pegava apenas um pedacinho, comia rápido e agradecia com um sorriso. A ouvi dizer que um quarto organizado com cheiro de lavanda, lençois e fronhas perfumadas com amaciante, pijama liso sem estampa a faziam feliz.
A última vez em que a vi era manhã de sol, vestia uma calça jeans azul, um sapato preto e uma camiseta básica branca, estava com seus olhos úmidos, porque o rímel que usava estava borrando seus olhos tristes. Cumprimentei-a com um bom dia e perguntei se estava tudo bem, ela sorriu com o canto da boca e disse, quase sussurrando: “agora sim”. Foi o último dia que a vi. Ela deixou as lantanas, que plantara na entrada do prédio solitárias, e no meu coração um vazio que até hoje não foi preenchido.
sábado, 12 de outubro de 2013
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