Uma rã se achava importante
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois pois.
Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata
desterrada no canto de uma rua, talvez para um
fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais
importante do que o esplendor do sol nos oceanos.
Pois Pois.
Em Roma, o que mais me chamou atenção foi um
prédio que ficava em frente das pombas.
O prédio era de estilo bizantino do século IX.
Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o
prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira
dos Andes.
Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira
dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importância das
coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar nas
minhas palavras.
(Poesia completa de Manoel de Barros, pág. 388 e 389)
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sexta-feira, 14 de julho de 2017
A Disfunção
Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca dos parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 – Aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 – Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 – Percepção das contiguidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 – Gostar de fazer casamentos incestuosos entre
palavras.
5 – Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 – Mania de dar formato de canto às asperezas de
uma pedra.
7 – Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais
Importância aos passarinhos do que aos senadores.
(Poesia completa de Manoel de Barros, pág. 381 e 382)
quinta-feira, 11 de maio de 2017
Quem são eles? - Segundo ato
SEGUNDO
ATO
Sala de professores. Duas cadeiras, uma na
frente e outra atrás de uma mesa retangular de madeira. Um desenho de uma
coruja com capelo afixado na parede também atrás da mesa. Na sala há um homem sentado
em uma cadeira atrás da mesa corrigindo provas, fazendo anotações. Sozinho. – É
começo da tarde.
CENA
I
Alberto (Sapo Cururu), Fernando
Fernando – (bate a porta) Posso entrar?
Alberto – Entre!
Alberto (surpreso, levanta da cadeira e
fica parado olhando para Fernando) – Pessoa?
Fernando (rindo) – Quem mais poderia
ser? Trump? O pato Donald? (ambos caem na risada, se abraçam).
Alberto – Que surpresa! O que te traz
aqui? (indica a cadeira a sua frente) sente-se!
Fernando (um pouco constrangido se senta)
– Aberto, me desculpe aparecer assim, sem avisar. Mas estava passando por aqui
e nem tinha pensando em encontrar você, mas pensei: Se o Alberto estiver ai,
vou trocar umas palavrinhas com ele.
Alberto – Que coincidência! Justo hoje
que estou de janela. Ah, você deve saber o que seja janela. Tanto tempo nessa
atmosfera escolar que já adoto, sem saber o motivo, os chavões profissionais.
Fernando (sorrindo) – Não se preocupe,
ainda me lembro o que é uma janela, (pausa) aquele espaço de tempo sem aulas
que o professor tem para fazer outras obrigações, não é isso?
Alberto (sorrindo) – Exatamente. (Fecha
o livro de anotações e organiza os papéis sobre a mesa e volta a olhar
Fernando) O que te traz aqui meu amigo, depois de tanto tempo?
Fernando (constrangido) – Novamente me desculpe
se tiver ocupado, posso voltar outra hora.
Alberto – De maneira nenhuma, aqui já
está, e como eu disse, estou de janela. (coloca os papeis dentro da gaveta e
continua a olhar Fernando)
Fernando – Preciso ouvir gente viva,
conversar com gente viva!
Alberto (cauteloso) Que papo é esse
Pessoa? Você está bem?
Fernando (olhando para a parede atrás de
Alberto, vê um desenho de um sapo com um chapéu de professor e embaixo uma
legenda: Sapo Cururu) – Sapo Cururu?
Alberto (surpreendido) O quê? (em
seguida olha para trás e vê também o desenho afixado na parede)
Fernando – (sorrindo) O mesmo apelido
que demos a você na época da faculdade, o que esse desenho faz ai?
Alberto (sorrindo) – Ah, foram os meus
alunos. Contei a eles uma história da faculdade quando preparava a leitura do
livro do Jorge Amado...
Fernando (interrompe) O Gato Malhado e a
Andorinha Sinhá?
Alberto – Exatamente. Contei a eles que
Sapo Cururu era o meu apelido na faculdade, pois eu tinha o plano de me tornar
crítico literário, (voz mais alta) “doutor em filosofia, catedrático de
Linguística”, lembra-se dessa frase? (gargalhando).
Fernando – (rindo) Como haveria de
esquecer? A Estrela sempre dizia isso. Eu imagino os outros ouvindo as nossas
conversas, com as nossas cismas de chamarmos por apelidos estranhos. Um mundo
que era tão restrito e comum a nós.
Alberto – Pois bem, contei aos
adolescentes uma parte da história e me apelidaram de Sapo Cururu. É tão
estranho ouvir outras vozes pronunciando esse apelido que me fora tão caro e
ainda me traz recordações tão felizes. Mas bem, não foi para lembrar o passado
que você veio aqui, foi?
Fernando – (sem jeito) Mais ou menos.
Não sei muito bem por onde começar, mas gostaria de saber se você tem falado com
a Estrela, o Pantanal ou com o Leitão?
Alberto (confuso) – Não. Faz tempo que
não os vejo e tampouco falo com eles, a minha rotina é tão atribulada que nem
tenho tempo de abrir o Facebook.
Fernando (ansioso) - Não estou
perguntando se você fala com eles pelas redes sociais, pergunto se tem falado
com eles por telefone, cartas ou pessoalmente.
Alberto (confuso) – Não. Você tem?
Fernando (envergonhado) – Também não.
(pausa) por telefone não.
Alberto (confuso) – Não estou
entendendo, Pessoa!
Fernando – Depois que você passou no
concurso e veio para cá, eu continuei na universidade, acreditava em tantas
coisas, mas meu pai morreu, minha mãe se apaixonou novamente e foi morar no
campo, minha irmã se separou do seu marido e mudou de cidade. Bom... (pausa)
muitas coisas aconteceram. Estou aqui há três semanas e a cidade parece pacata,
aluguei um quarto próximo ao centro e tenho procurado emprego, enviado
currículos. Tenho escrito para eles, há algum tempo e eles têm me respondido...
Alberto (interrompe subitamente e
surpreso) – Sério? Que maravilha! Podemos marcar um jantar, quem sabe? Em casa,
não sei, talvez...
Fernando (sem jeito) Sim, claro!
(mudando de assunto) Como está a sua vida? Deve ser um pouco difícil ser
professor hoje em dia.
Alberto (suspira) – Não é fácil, mas
também não vou ficar enchendo você com os problemas burocráticos e os
infortúnios diários. Deve se imaginar, estrutura precária, baixo salários, mas
eu gosto de ser professor de literatura e como escreveu o Jorge Amado: “Temos olhos de ver e olhos de não ver,
depende do estado do coração de cada um”. Portanto há dias que vejo
diferente e outros que me proponho a imaginar.
Fernando (apressado) – Certo... Bom
(fala pausadamente) Sapo Cururu (sorrindo) foi ótimo ter tido essa oportunidade
de reencontrá-lo, mas imagino que você tenha muitas obrigações e eu tenho que
voltar ao meu quartinho, amanhã tenho uma entrevista.
Alberto (surpreso) – Mas já? Você acabou
de chegar, eu tenho tempo, aulas agora só amanhã.
Fernando (inquieto) – Realmente eu
preciso ir. Como agora eu sei que você aqui está sempre, combinemos outro dia e
tomamos um café, assim eu conto como estão os outros.
Alberto (conformado) – Entendido. Foi um
prazer rever você, volte mesmo e boa sorte na entrevista, de que mesmo?
Fernando (cabisbaixo) – Contador de
histórias.
Alberto (surpreso) – Contador de
histórias? (percebendo a cara de insatisfação, muda o tom) Bom... Boa sorte meu
amigo. Por favor, se precisar de algo, sabe onde me encontrar, venha sem
pensar. (Busca uma caneta e um papel dentro da gaveta) Pessoa, me passa seu número
de celular para eu ligar a você mais tarde.
Fernando (ansioso) – Não tenho celular
ainda, mas quando eu comprar um novo eu passo sim. Venho à próxima semana, no
horário da sua janela, tudo bem?
Alberto (respeitoso) – Ah, claro. Sem
problemas. Até logo então. (se abraçam)
Fernando – Até (sai pela porta e a
fecha).
segunda-feira, 10 de abril de 2017
Quem são eles? - Cena V
CENA
V
Fernando
É manhã. Fernando acorda atrasado, os
raios de sol penetram pela janela aberta pousando sobre seus pés. Olha para o
despertador e são 9 horas. Levanta da cama em um impulso e vai trocando de
roupa rapidamente e pensando alto.
Fernando
– (assustado) Meu Pai do céu! Estou atrasado. (olhando para o despertador) Eu
me esqueci de colocar para despertar! Que noite foi essa? Tenho que escrever,
melhor tenho que ligar, para os meus amigos. Sinto tanto saudades e essa rotina
louca me prende ou será que sou eu que me deixo ser escravizado por ela? Mas
agora não dá tempo, hoje tenho uma entrevista, vou deixar para mais tarde,
melhor quando eu estiver mais calmo, talvez na próxima segunda-feira.
(Fernando
busca seu outro par de sapatos, os calça, coloca algumas cartas na mochila, se
aproxima da porta e olha para trás).
Fernando
– (Triste) Bom, quartinho, fique bem, mais tarde eu volto para dormir e repetir
essa rotina que escolhi.
terça-feira, 4 de abril de 2017
Quem são eles? - Cena IV
CENA
IV
João (Leitão), Fernando
O quarto continua escuro. Fernando abre
a gaveta do criado mudo e toma nas mãos uma caixa de fósforos. Risca-o na lateral da caixa e acende o toco de vela ajustando-o no castiçal. Apoia o
castiçal na escrivaninha, organiza os envelopes em cima dela.
Fernando
(refletindo) – Se eu contar isso a alguém já não terão dúvidas da minha insanidade.
Clarice – a Estrela, Manoel – o Pantanal, só me faltava agora o João – o
Leitão...
João
– Você me chamou Pessoa?
Fernando
(Se vira bruscamente após ouvir as palavras de João) – Ah não, estou louco
mesmo!
João
– O que você disse menino?
Fernando
(cansado e convencido com aquelas aparições inusitadas) – Nada.
João
– Pois bem, o que lhe afilhe Pessoa?
Fernando
– Não sei por onde começar, não sei nem porque estou falando com alguém que não
tenho a certeza que está aqui. São tantos nãos sei na minha cabeça, que duvido
da realidade e é embaçado o meu raciocínio.
João
– Vamos tentar ser simples, sem buscar uma resposta para todas as perguntas sem
respostas da vida. Essas cartas que estão ai são de quem?
Fernando
– De quem mais poderiam ser? Suas, da Clarice, do Manoel. E parece que hoje
resolveram me visitar todos, talvez uma ilusão criada pela minha mente para
pregar uma peça grande, um caminho para que eu me reconheça tão louco como me
dizem.
João
(sorrindo) – Sempre dramático esse menino. Nada mais comum em falar com amigos,
mesmo quando para alguns parece loucura se eles não estão fisicamente próximos.
(mudando de tom, mais sério) Pare de tentar ser aceito por medíocres que nem
tenham ideia do que é viver. Apenas se limite a respeitá-los e se distancie
para que aquela atmosfera não o contagie.
Fernando
(parando junto à janela) – A Clarice disse que era para olhar para lá, além
dessa janela, ela me perguntou o que eu vejo. O que você vê?
João
(sorrindo) Eu vejo pessoas, o que você vê?
Fernando
(sorrindo) – Você sempre tonto. (mais sério) Como assim pessoas? É um terreno
baldio, infértil, que ninguém quer. Abandonado a sua própria sorte, sujo de
lixo, mantido por irresponsáveis, produtor de ratos asquerosos.
João
(se distancia da janela e se aproxima da porta) – Cada indivíduo vê o que quer
ou o que consegue, não é? Podia dizê-lo que através dessa janela há um
horizonte cheio de oportunidades. Talvez pudesse dizer que não há nada além de
uma noite fria. O céu é um lugar compartilhado por todos, veja o céu.
Fernando
(incrédulo) – O que você está dizendo, Leitão?
João
(rindo) – Agora você me chama de Leitão? Isso era no tempo da faculdade, você
ainda preserva esses nomes para se sentir mais próximo de nós, não é verdade?
Algo como se fosse à palavra mágica da aproximação, do segredo de intimidade.
Isso é bom, é bom meu amigo. (sério) Pessoa, quantos humanos estão tentando
sobrevier aos conflitos internos e externos que são submetidos diariamente? Não
quero que você pense que estou generalizando para que a sua dor se torne menor,
não! Estou dizendo que estamos todos sobre o mesmo céu. Consegue entender isso?
Fernando
– Acho que sim. Mas já não tenho energia. Olhe para esse quarto, olhe aonde
cheguei depois de todas aquelas aulas na universidade, aqueles empregos mal
remunerados, as notas boas, a alegria de defender a tese, os abraços de vocês.
Só me restaram lembranças e a realidade não tem unidade básica, não tem diálogo,
só um monólogo aparente que disfarço entre sons de minha própria voz. Ela é tão
bizarra, pois mais que falem ao seu respeito, nenhuma realidade é tão crua e
nua como a própria vivida. Sou o pagador de promessas que ama seu burro que o chamo
de vida. Pareço louco?
João
– Parece-me normal. Afinal o normal é o anormal, pois o que é normal, Pessoa?
Fernando
– Normal, como dizem, é ter uma vida economicamente estável, para ser feliz
cuidando da família, dos animais de estimação e voltar para a casa sem muitos
conflitos e conseguir dormir. Ser normal é ter uma rotina, um teto, algo para
preencher o tempo e dormir. Acho que ser normal é participar de um ciclo
vicioso, ser embalagem da representação social, ser comum ao ponto de ser um
número. (voz embargada) É acreditar em algo, mas deixar esse algo em que se
acredita secar, e enquanto isso ir postergando até que não dê mais tempo para
alcançá-lo. Ser normal é ser covarde, é não respeitar os outros como eles são e
ditar seu comportamento por meio da sua embalagem cuidadosamente mantida
cotidianamente. (cabisbaixo) Sou normal, Leitão.
A
vela acaba restabelecendo a escuridão do quarto. Não se vê e não se houve mais
nada.
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