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segunda-feira, 4 de março de 2013

Não inveje!

 
 
"Não inveje com olhos o bem do seu irmão, pois é desconhecido pra você o presente que lhe é separado. Sinta-se feliz por compatilhar a felicidade com ele e siga a confiança do que é seu, está esperando a hora para você alcançá-lo".

Não posso!

"- Você já se sentiu assim?
- Assim, como?
- Meio triste e desanimado, cansado e pronto pra fugir?
- Fugir? Fugir pra onde?
- Sei lá, para algum lugar.
- Ah, claro. Mas eu não posso.
- Ué, porque você não pode?
- Porque eu não posso abandonar a minha oportunidade de me tornar mais forte".

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O que você está esperando?


Morávamos no campo, onde as árvores pareciam mais alegres e o vento as tocava sem cessar. Um conjunto harmonioso entre a natureza e a humanidade que me encantava. Observei que sobre seus cabelos ondulados, o sol a aquecia naquela manhã de sábado. Ela despertou com a mesma palidez de sempre, seu caminhar paciente e seu avental florido, acompanhado do lenço no cabelo, a tornavam um personagem ímpar.
Sua rotina era preenchida entre os afazeres domésticos e o cuidado com os animais.
Foi em uma manhã qualquer que tudo mudou. Ela apareceu sem o seu lenço matinal com os cabelos curtos, e no seu corpo delgado um vestido azul a trazia de um lugar que eu desconhecia. Parecia cantar enquanto dava de comer aos carneiros, parecia ter se encontrado e querer aproveitar mais a vida.
Eu a analisava através da janela do meu quarto, enquanto eu ainda estava na cama e o sol me despertava com aquela luz, ela já estava em pé, e eu, sentado na cama, abria a cortina e a via.
O que essa menina estava esperando para aproveitar realmente a vida? Porque demorou tanto para aparecer, sempre escondida por trás daquela fantasia.
Ouvi a sua voz, ela parecia cantar “Je Veux” de Zaz, sim, ela cantava: “Je Veux d'l'amour, d'la joie, de la bonne humeurc' n'est pas votre argent qui f'ra mon bonheur, moi j'veux crever la main sur le coeur”. Como isso era fantástico, ela mudou, parecia uma mulher mais feliz, transpirava felicidade e sua voz estava tão doce quanto o seu sorriso delicado. Fiquei empolgado com aquilo. Acredito que acordei realmente e pensei, o que eu estou esperando para mudar? Criei coragem e a abordei, e descobri que aquela moça, aparentemente frágil, era mais incrível que eu imaginava. Depois de algo que aconteceu em sua vida, que a transformou, ela resolveu mudar seu destino, aproveitar a natureza, compartilhar músicas, ensinar e aprender, sorrir após o bom dia, prestar atenção ao seu redor, pedir ajuda, focar na felicidade e compreender que vivemos em um mundo efêmero, no qual tudo muda, se você quiser.
E a partir daquela conversa, nos tornamos amigos, ela me ensinou a tratar os animais, como colher morangos e decorei Je Veux. Aprendi sobre plantas medicinais, geografia e um pouco de magia.
Era muito engraçado quando chovia e estávamos no meio do campo, era correr ou aproveitar a chuva, escolhíamos molhar a roupa, tirar o sapato e correr entre o capim molhado enchendo nossos pés de barro, era incrível, era a felicidade invisível invadindo e fortalecendo a nossa amizade.
E como chegou, ela se foi, aconteceu assim, um dia não mais a encontrei e boatos alcoviteiros anunciaram a sua partida. Meu mundo pareceu ficar cinza, mas pensei: eu tenho escolha! Ou fico triste, ou entendo e sigo em frente. Escolhi ser feliz e agradecer por aquele momento em que não esperei algo extraordinário acontecer para eu ser feliz, eu parti para a felicidade e a descobri. Obrigado moça de olhos e cabelos castanhos, por impulsionar a minha escolha.

domingo, 6 de janeiro de 2013

O Paraíso dos Meninos


Foi em uma tarde de segunda-feira, depois do almoço, estava eu correndo à beira da estrada procurando a mangueira que recheada de mangas amarelas me convidava a escalá-la, eu conheci a amizade. O chão parecia um tapete de retalhos, misturado com capim verde, pedras sujas de terra e folhas secas. O vento era veloz, anunciava uma tempestade iminente, roçava meus cabelos curtos e me fazia cócegas. Ali, as tardes eram rápidas, pois a felicidade não tinha figura, era abstrata e presente.
Quase sempre depois da escola, deixava minha mochila na cama, tirava o uniforme e encontrava com você, debaixo daquela mangueira que chamávamos de castelo de Bodiam, só porque estudávamos, naquele ano, tais curiosidades infantis. Tínhamos uma casa na árvore, estilingues usuais e os de reserva, facas de serra para cortar folhas e um balanço com um pneu enorme de caminhão.
Nessa época eu não sabia o que era trabalho – a não ser os da escola – não imaginava como alguém poderia ficar nervoso por ter tantos compromissos e não saber recusá-los. Não conhecia a palavra responsabilidade, essa condição que os adultos devem ter de arcar com o próprio comportamento, errávamos, chorávamos, pedíamos desculpa e íamos dormir. No outro dia, tudo estava bem.
Não me lembro exatamente como foi, como aconteceu, se foi algo repentino ou gradual, mas acredito que foi ali que conheci a amizade. E é esse sentimento que me impulsiona a escrevê-lo, independentemente de saber se você lerá ou não. Eu tenho que manifestar essa saudade que me invade quando vou ao mercado e tenho nas góndolas mangas maduras, quando me sento na varanda e aquele vento me traz a lembrança daquelas tardes memoráveis.
Hoje estou aposentado e vejo meus filhos em duas ocasiões anuais: no Natal e na última semana do ano para entregar a declaração de imposto de renda. A vida por aqui não é nada má, porém, já perdi aquela energia que tínhamos ao nos lançar do tronco do castelo de Bodiam ao chão, para mensurar a nossa capacidade de heróis, de ser ágeis e fortes.
Sinto falta de conversar com você, de brigar por ideais idiotas e fazer as pazes com nosso dedo mindinho. Soube que sua saúde está debilitada e que o vento não pode tocá-lo com tanta agilidade, por estar frágil, alguns cuidados são necessários, porém soube também que a sua coragem permanece a mesma e o brilho dos seus olhos ilumina a esperança da sua esposa.
Meu amigo, escrevo a você com o desejo de que melhore, porém, se assim não for possível, desejo que se lembre da nossa amizade, que embora distante, permanece viva dentro dos nossos corações. Que a paz o acompanhe e que você sinta-se feliz.
Foi por meio de você que esse sentimento brotou dentro de mim. A amizade é fruto da compreensão, da capacidade de entender as falhas, as ideias contraditórias, as diferenças. Amigos são imperfeitos, pois como disse Fernando Pessoa: “O perfeito é desumano, pois o humano é imperfeito”.
E quando chegar a nossa hora, saberei refletir como um velho sábio e dizer adeus como uma criança alegre que já esteve no paraíso, aquele em que sorríamos e brincávamos: o paraíso dos meninos.

sábado, 8 de dezembro de 2012

O Segredo de Janaína

                 

Ela era morena, esbelta e triste. Seus cabelos compridos, estendidos até a cintura, sempre soltos e tocados pelo vento, arrebatavam as miradas dos jovens atentos e dos adultos inconformados. Ela era envolvida por seu segredo que guardava com tanta obstinação. Seus passos registravam na areia pegadas leves e sem cessar eram apagados pela cheia das marés. Ninguém entendia o seu caminho cotidiano em frente ao mar, no cais. Nunca tive coragem de perguntá-la sobre o que ela tanto buscava, tampouco supri a minha curiosidade de entender a razão de, todas as tardes, seu contemplar do entardecer. Todos queriam saber o segredo dela, embora todos tinham claro que nunca ela deixara a sua voz ser ouvida. Eu arrisquei...

“Despedi-me com lágrimas no rosto, olhei nos olhos dele e percebi o seu afastamento contido e, aos poucos, o barco deixou a orla da praia”, contou-me ela. “Acenei com a mão direita, e ao passo que ia me distanciando acenei com a esquerda. A partir daquele crescente sentimento de solidão que me invadia, acenei freneticamente com ambas as mãos, com a vontade de dizer para que ele permanecesse. Naquele dia, eu usava este vestido, agora velho e gasto. Mantenho até hoje o comprimento do meu cabelo e o espero aqui, para que se cumpra a sua promessa de regresso. E, se ele voltar, que não tenha dúvidas de que aqui estou e estive esperando todo esse tempo, sozinha. Caminhei pelas areias para que o tempo se compadecesse de mim e ouvi as pessoas dizerem que a louca do cais nunca se separaria desse mar. Muitas tardes eu conheci, das lindas às temerosas, das esperançosas às inconformadas. Juntei o tempo, mensurei as lágrimas e sempre me fortaleci com as esperanças. Hoje, a ilusão e a tristeza já não me afetam mais, o entardecer se tornou uma energia necessária, esqueci-me da face dele e do jeito que ele me olhava, das palavras doces que me dizia”.

- Hoje - disse-me - tenho fios de prata na cabeça e ainda não o tenho, pois acredito que já se esquecera de mim. Já não me importa o julgamento de alheios e vivo de uma maneira que consigo identificar na natureza a paz que eu precisava. Ainda que eu permaneça nesse cais, aqui é o meu lugar, aqui eu ficarei até o fim dos meus dias.

E, depois daquela confissão, eu a entendi e passei a admirá-la, por sua convicção e amor. Mudei as minhas ideias pré-concebidas de partir de uma opnião sem refletir, apenas baseado em boatos alheios.

Mesmo que essa seja apenas uma lembrança, acredito que ela ainda estaria ali por entre aquelas águas, caminhando até o cais e admirando aqueles belos fins de tardes, se fosse imortal. Seu nome era Janaína, sua voz era doce e seu comportamento era consciente. Ela era livre e determinada, não importava qual fosse seu obstáculo, ela cumpriu seu destino.

E depois desse tempo, ao chegar ao cais me lembro daquele dia, o dia que a coragem me tocou e eu fui conhecê-la. Soube de sua história e de suas frustrações, seu desejo e seu fim. E sempre quando escuto “En el muelle de San Blás” é impossível não me lembrar daquela mulher que guardou o seu segredo, rompeu milhares de tardes, e permaneceu sozinha até o fim.

“Sola, sola en el olvido
Sola, sola con su espíritu
Sola, sola con su amor en mar
Sola en el muelle de San Blas
Se quedó ahí
Se quedó hasta el fin
Se quedó ahí
Se quedó en el muelle de San Blas
Sola, sola, se quedó” - En El Muelle De San Blas - Maná