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segunda-feira, 6 de abril de 2020

O gênio do crime e as suas memórias


Nasci em meio a uma família conturbada. Tínhamos dificuldades financeiras, enquanto meu pai trabalhava na Ferrovia Paulista S/A, como garçom, minha mãe cuidava da casa alugada em que vivíamos em Uberaba. Os recursos eram escassos, assim como a comida, as roupas, o material escolar, o uniforme. Entrei no pré-primário no ano de 1991, pela insistência de minha mãe. Ela queria que eu fosse direto ao primeiro ano, pois já sabia ler, mas ainda não tinha 7 anos. Fiz o pré e no ano seguinte, a diretora me aceitou na primeira série do ensino fundamental.

São muito fragmentadas essas memórias tão longínquas. Acredito que a minha mãe me ensinava algumas palavras em casa. Lembro de ela comprar um caderno brochura de folhas amarelas para eu repassar todo o conteúdo do caderno velho ao novo. Ela dizia que a minha letra estava ilegível e que assim não poderia continuar. Lembro também dela começar a copiar o conteúdo do caderno velho ao novo, em uma atitude exemplar, e constantemente pontuar o desleixo da minha inaptidão com a escrita. Ela dizia: “Veja, é assim que se faz. Agora você irá continuar”. Acredito que devido a essa atitude e várias outras semelhantes de minha mãe fizeram com que a minha caligrafia se desenvolvesse a ponto de ouvir elogios das professoras e algumas delas adjetivarem de letra de menina. “Superei o obstáculo com a escrita”.

Foi na sexta série, em 1998, que tive a primeira experiência significativa com a leitura. Antes disso, apenas ouvia as histórias bíblicas que a minha avó nos contava, a mim e aos meus primos, e é difícil me lembrar de outras experiências de leitura no passado. No sexto ano, a professora Juliana era uma mulher magra, de cabelos loiros e soltos, de rosto fino e alegre. Ela usava jeans e camiseta, trazia consigo sempre o diário de classe azul e alguns livros. Era uma professora que conseguia fazer com que uma classe com mais de 30 crianças ficasse em silêncio para ouvir a sua história, todo o final de aula.

O que mais me chama atenção nessas memórias é o que permanece. Não é possível me lembrar das suas aulas de gramática ou interpretação de texto. Não sou capaz de dizer como ela nos dava as famosas orações subordinadas ou explicava os fenômenos linguísticos, só me lembro dela ler para todos nós.

No silêncio daquelas tardes, em que eu e meus colegas, ficávamos ouvindo sua voz passear tranquilamente por aquela sala e chegar aos nossos ouvidos. A sua maneira de iniciar um novo livro era mágica e instigante. O seu tom de voz era pausado, ela esperava pelas nossas feições, espreitava as nossas reações, e por fim, nos mostrava a capa do livro e fazia um breve resumo da história.

Uma dessas histórias, contadas nos minutos finais de cada aula de língua portuguesa, foi “O gênio do Crime” de João Carlos Marinho. A professora tinha uma maneira de contar aquela história que eu nunca tinha ouvido em nenhum lugar. As vozes das personagens, a entonação, as pausas, nos retiravam daquele ambiente, parecia que estávamos todos dentro da história. Ela não nos fazia perguntas, não cobrava para a prova, não pedia resumo nem perguntava o que havíamos entendido, apenas lia. Dessa história, uma das personagens que mais me marcou foi o Mister John, um detetive escocês. Não pelo seu carisma ou pela sua relevância durante a narrativa, mas pelo jeito com que a professora mudava a voz ao ler suas falas. Era tão diferente, bonito. Eu me perguntava como a professora lia daquela maneira, como ela conseguia.

A história era estimulante, era um crime que ia sendo desvendado por crianças como eu. Os protagonistas eram inteligentes, claro! Mas também faziam travessuras, cometiam erros e aquela história marcou a minha vida. Anos mais tarde retornei às páginas do texto do João Carlos Marinho e encontrei ali um abraço, uma revigorante sensação de carinho e de lembrança. Fiz uma leitura compartilhada com o meu sobrinho tentando fazer a mesma voz do Mister John, fracassei! Pois tentei recuperar aquela lembrança tão amável que era impossível imitar. Resolvi então deixar que o meu sobrinho lesse e foi divertido, gargalhamos juntos, contei a ele que anos antes a minha professora tinha lido essa história na escola e que naquele tempo ela fazia o melhor Mister John que eu já ouvira. “Superei o obstáculo com a leitura”.

No ensino médio comecei a escrever alguns rascunhos, dava para alguns colegas ler. Naquela época a professora pedia redação e o gênero que eu mais gostava era cartas. Não sei dizer, mas as cartas têm uma maneira atenciosa e informativa de apresentar seu conteúdo. Escrevia também histórias breves, gostava de muito de descrições, nomes diferentes. Todos esses textos se perderam, mas não a minha capacidade de recordar deles.

Mais tarde, criei um blog em que escrevia sobre desilusão amorosa. A primeira leitora desses textos era a minha irmã, depois alguns de meus amigos. A minha irmã dizia que era lindo e eu concordava, em uma contemplação juvenil e romântica achava que por meio das palavras conseguia materializar toda aquela insatisfação idealista de pesarosa dor das relações efêmeras dos apaixonados precoces.

Hoje, não mais escrevo como antes, as obrigações de leitura e de escrita são mais acadêmicas e profissionais. Percebi que ler e escrever é um hábito e é necessário cultivá-lo para melhorar. Não tenho mais uma ideia romântica de “dom” da escrita e nem acredito mais que a leitura é uma característica dos cultos. O que imagino saber é que com cuidado, atenção e orientação todos podemos ler e escrever, cada um no seu estágio rumo a um desenvolvimento particular e significativo.

domingo, 22 de setembro de 2019

Cântico da Liberdade



Praia é a sua capital, seu hino nacional, intitulado “Cântico da Liberdade”, reúne elementos conhecidos da temática libertária e fraterna de um povo arquipélago, assim Cabo Verde é “abraçado” pelo oceano atlântico, tem sua língua oficial o Português, seu clima é árido e a escassez de recursos naturais e de chuvas revelam uma predisposição da sua população a emigrar.

Dessa forma a literatura cabo-verdiana refletirá a problemática do evasionismo, ou seja, uma tendência da população em abandonar o país devido as condições difíceis de vida. Um dos principais nomes desse movimento evasionista é Osvaldo Alcântara, pseudônimo poético de Baltasar Lopes (1907 – 1989), que inicia uma espécie de “pasargadismo” cabo-verdiano.

Para exemplificar a temática da evasão, temos em seu poema “Itinerário para pasárgada” uma alusão ao poema “Vou-me embora pra Pasárgada” do poeta modernista brasileiro Manuel Bandeira, assim como o poema de Bandeira não há rimas e apresenta versos livres. Essa intertextualidade que transcende fronteiras nacionais é estudada pelas teorias da Literatura Comparada.

Para Tenório (2015, p. 1) “Ambos citam Pasárgada no início do poema; Bandeira diz que vai, Alcântara afirma ter saudade; há uma descrição minuciosa de como é a vida em Pasárgada; Bandeira é amigo do Rei e faz de tudo o que quiser, Alcântara analisa os comportamentos dos habitantes e até o que há no céu.”

Saudade fina de Pasárgada… / Em Pasárgada eu saberia / onde é que Deus tinha depositado / o meu destino… / E na altura em que tudo morre…

[...]

Na hora em que tudo morre,/ esta saudade fina de Pasárgada / é um veneno gostoso dentro do meu coração.



Jorge Barbosa (1902 – 1971) e Manuel Lopes (1907 – 2005) são também dois nomes consagrados na literatura cabo-verdiana em que assim como Baltasar Lopes, fundam “Claridade”, revista considerada o marco da independência literária cabo-verdiana, sob o princípio de “fincar os pés na terra”, ou seja, preocuparam-se em “produzir uma literatura baseada na realidade cabo-verdiana e mais atenta às realidades de cada dia”. (COSTA, 2016).

Os poemas escolhidos para tratar o evasionismo em Jorge Barbosa, tendo por tema a insularidade são: “Poema do mar” e “Irmão” que constam em seu segundo livro intitulado “Ambiente” de 1941, em Manuel Lopes o “Poema de quem ficou” de 1949 do livro homônimo.



POEMA DO MAR

[...] O Mar!

a esperança na carta de longe

que talvez não chegue mais!...

[...] Este convite de toda a hora

que o Mar nos faz para a evasão!

Este desespero de querer partir

e ter que ficar!





IRMÃO

Cruzaste Mares

na aventura da pesca da baleia,

nessas viagens para a América

de onde às vezes os navios não voltam mais.

[...]



Ser levado talvez um dia

na onda alta de alguma estiagem!

como um desses barquinhos nossos

que andam pelas Ilhas

e o Oceano acaba também por levar um dia!



É possível observar nos fragmentos supracitados, “Poema do mar” e “Irmão”, os temas da evasão e da insularidade. 

No primeiro poema está um convite para evadir: “o Mar nos faz para a evasão”, embora há também uma discussão sobre a tensão materializada pelo movimento dramático de ir e voltar das ondas do mar, é notório observar o explícito sentimento de indecisão, refletindo a instabilidade do eu poético: “Este desespero de querer partir e ter que ficar! ”. 

No segundo poema o tema da evasão também está associado ao mar, porém aqui é através de um propósito definido, aparentemente uma solução aos problemas sofridos pelo sujeito poético, em que a evasão se torna um caminho escolhido por outros que foram e não regressaram: “nessas viagens para a América de onde às vezes os navios não voltam mais”.

Conforme Silva (2011, p. 21): “Jorge Barbosa será sempre associado à evasão decorrente da insularidade que atravessa a sua obra, mas essa descrição evasionista revela-se documental, de uma realidade que o poeta deseja fortemente registar”.

Para inferir a evasão no poema de Manuel Lopes, “Poema de quem ficou”, precisamos ler com mais cuidado, pois o tema não está totalmente marcado na superfície textual. 

Comecemos a perceber a ideia do evasionismo refletida no título, quem ficou fora aquele que não foi, portanto, o poema irá discutir a visão do eu lírico por meio dessa perspectiva, daquele que permaneceu, sentindo saudades, inquietudes, esperanças e com expectativa “que nunca viram teus olhos no mundo que percorreste...”

Eu não te quero mal

por esse orgulho que tu trazes;

por esse teu ar de triunfo iluminado

com que voltas…


… Que teu irmão que ficou

sonhou coisas maiores ainda,

mais belas que aquelas que conheceste…

– bosques de névoa, rios de prata, montanhas de oiro–


que nunca viram teus olhos

no mundo que percorreste…


É possível perceber também que no poema de Lopes há também a ideia do partir e ficar, lembre-se do “Poema do Mar” de Jorge Barbosa, representado pelo eu lírico que se foi e o que permaneceu, o emigrado que regressa e o irmão que ficou a sonhar coisas maiores.

É perceptível identificar esse embate sobre a ideia de evasão nos poemas, sendo que a maioria das vezes o eu lírico se comporta de uma maneira instável, entre partir e permanecer, não sendo totalmente livre, mas sempre registrando uma culpa, mesmo que levemente interiorizada, culpa está refletida pelo indecisão e tensão nos versos. 

Portanto é possível inferir que a partir desse sentimento tenha gerado um movimento contrário denominado anti-evasionista registrado a partir da década de 1960 e 1970 apoiado especificamente pelo poeta cabo-verdiano Corsino Fortes (1933 – 2005) morto aos 82 anos em que usou a poesia como forma de liberdade e de afirmação identitária.

Para exemplificar melhor esse movimento anti-evasionista tomemos os poemas de Ovídio Martins (1928 – 1999) que assinalam explicitamente esse sentimento. No livro, repare no título: “Gritarei, berrarei, matarei: não vou para Pasárgada” (1973), temos os poemas: “Processo” e “Anti-evasão”.


PROCESSO

Não é verdade / meu irmão / não acredites nisso / A fome que vimos / gramando / século de riba de século / não foi a estiagem / que a pariu [...]

A estiagem nada / tem com isso / Quem é / que tempo sem conta / te vem explorando / terra nossa / Quem é / que nos anos de crise / te condenou à morte / povo meu.


ANTI-EVASÃO


Pedirei / Suplicarei / Chorarei / Não vou para Pasárgada


Atirar-me-ei ao chão / e prenderei nas mãos convulsas / ervas e pedras de sangue / Não vou para Pasárgada


Ambos fragmentos dos poemas estão em um livro que alude ao poeta brasileiro Manuel Bandeira, e seu reconhecidíssimo poema. 
É notório o uso dessa intertextualidade para firmar que não interessa o sentimento de evadir, ir embora para um outro lugar, pois a terra, a nação do eu lírico é aquela com as suas mazelas e belezas, frutos de uma história libertária e de uma busca identitária que reuniu braços e penas, a força e a resistência, é alvo de um lar construído por seus filhos nacionais.

A presença do panafricanismo na poesia africana de língua portuguesa

A construção de identidade de um povo, entre outros constituintes, pode se dar por meio da ideia de nação, aparado pelo espaço geográfico delimitado e a língua usada por esse povo, em que ambos contribuem para a construção de uma identidade nacional.
Esse conceito, identidade nacional, é muito complexo, pois nomeia e abrange diversos sentimentos de pertencimento a um local determinado, a uma consciência coletiva, aos valores míticos e aos valores racionais. É importante também salientar que a identidade nacional é formada por escritores intelectuais e pela percepção histórica e social envolta dos acontecimentos, quase sempre condicionado a uma visão, em outras palavras, “aquilo a que chamamos identidade nacional projecta aspirações colectivas, que se exprimem mediante narrativas históricas e crenças acerca do valor e da diferença em relação às nações vizinhas ou próximas. ”, escreveu o professor Nuno nos comentários de um texto meu no blog acadêmico.
Cabendo essa tentativa de expor e tentar entender a complexidade desse conceito, retomemos, resumidamente, alguns fatos sobre a história da colonização portuguesa em Angola.
É sabido que os portugueses colonizaram Angola a partir do século XV tendo esse povo vivido desde então o processo desumano, cruel, escravocrata e exploratório por 5 séculos, ou seja, apenas em 1975, quando Agostinho Neto proclama a independência, Angola se converte em um país independente.
Também é notório evidenciar sobre a problemática divisão do continente africano, em que muitos estados tiveram suas fronteiras postas sem qualquer preocupação com as pessoas que ali viviam, é dizer que foram submetidas a uma divisão territorial sem dar importância em como o povo se organizavam politicamente.
Tendo por base essas informações é possível entender melhor a poesia de Agostinho Neto (1922 – 1979) e de Viriato Cruz (1928 – 1973), ambos poetas angolanos que viveram pouco, 57 anos e 45 anos respectivamente, e que sofreram, como o seu povo, a imposição linguística, cultural e territorial de uma nação colonizadora e opressora.
Assim os poemas: “Mamã negra (Canto de esperança) ”, de Viriato Cruz, e “Adeus à hora da largada”, de Agostinho Neto possuem em si um apelo à liberdade e a humanidade desta população negra escravizada, privada de sua liberdade, encarcerada por suas ideias libertárias, marcada por guerras internas e externas, vítimas da fome e da sede, subjugada por uma supremacia racial vergonhosa e imoral que massacrou um continente inteiro negando-o a luz e a esperança.
Pode-se extrair a partir do título do poema, “Mamã negra (canto de esperança) ”, quatro elementos fundamentais para a atribuição de sentido deste: “Mamã”, relativo à mãe, princípio de nascença, ideia concebida como forma de natureza geradora de um determinado povo; “negra”, característica de um povo, não necessariamente definido por fronteiras territoriais; “canto” ideia de som, musicalidade e por fim “esperança”, sentimento motivador que está contido nessa manifestação artística.
Assim como no primeiro poema, Agostinho Neto em “Adeus à hora da largada” também irá remeter a ideia simbólica de “mãe” em seu poema para também referir-se a África, “todas as mães negras cujos filhos partiram”. É interessante perceber que neste poema não se espera a “mítica esperança”, pois devido a todas as suas experiências de vida, cabe ao eu poético não mais esperar e sim perseguir, no sentido de buscar, alcançar esse desejo, valendo da afirmativa: “Eu já não espero / sou aquele por quem se espera”. Tal coragem e determinação revela a autenticidade e a clareza das ações do eu poético que contribuirá para o desenvolvimento desse povo. “Entoaremos hinos à liberdade / quando comemorarmos / a data da abolição desta escravatura”, é dizer que todos os filhos da África irão em busca de “luz”, “vão em busca de vida”.
Para discutir com mais clareza a presença do pan-africanismo é pertinente retomar a ideia de “mãe”, de natureza simbólica registrada e evidenciada em ambos poemas, que de acordo com Santos (2007, p. 27): “Essa Mãe era, ao mesmo tempo, mulher e terra, configurada nos mesmos padrões das Grandes Mães neolíticas, deusas da fertilidade e da fecundidade, e representava, no contexto angolano (e africano), a mãe negra biológica, a nação angolana e o continente africano, numa perspectiva pan-africanista que concebia a África como a progenitora da raça negra e também a terra prometida de um povo em diáspora”.
Outro elemento marcante nos dois poemas são as vozes que ressoam em seus versos: “a esperança somos nós / os teus filhos”, “abandonados ao ritmo dum batuque de morte / teus filhos”, vozes estas representativas de um povo marcado pela opressão: “Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos das pampas das minas! ”, “Vozes de toda América! Vozes de toda África!/ Voz de todas as vozes”, portanto são filhos “que trazem a presença negra para criar um diálogo de esperança. E, nenhuma dessas vozes tem mais importância que a outra, pois cada uma delas é um enunciado que dialoga com outro para criar o canto uníssono da humanidade”. (CÍRIACO, 2013, p. 2). Para Santos (2007, p. 28): “em Angola, o canto à Mãe-África tornou-se então um grito de afirmação da identidade angolana (angolanidade) e africana (africanidade), resgatando o elemento ancestral africano acobertado pela assimilação cultural européia promovida pelo colonialismo, o que resultou no (re)nascimento do sonho, da esperança e da certeza de um amanhecer livre das amarras do sistema colonial português”.
Para conclusão desta breve exposição feita, cabe aqui também alargar a referenciação dessas questões essenciais a poesia angolana à luz de outros poemas de Agostinho Neto que reforçam as ideias discutidas.
Em “Sagrada Esperança”, título muito propício para a tentativa de liberdade e humanidade buscada pelo povo africano podemos observar a remissão da musicalidade, do canto, da luta, do sofrimento, nos versos de “Sinfonias”: “A melodia crepitante das palmeiras”, “E a música dos homens / lambidos pelo fogo das batalhas inglórias”, “a luta gloriosa do povo”, “A música / que a minha alma sente”.
Também é possível identificar em “Confiança” os versos que retratam a retirada de pessoas de seu lugar de origem e transladados a outra parte do globo a fim de exploração, maltratados, violentados, construtores de um novo mundo, que esquecidos carecem de o mais essencial, o alimento: “O oceano separou-me de mim / enquanto me fui esquecendo nos séculos”, “Enquanto o sorriso brilhava / no canto de dor / e as mãos construíram mundos maravilhosos”, “As minhas mãos colocaram pedras / nos alicerces do mundo /mereço o meu pedaço de pão”.
Por fim no poema: “Não me peças sorrisos” trata-se da condição servil daqueles que estando em condições precárias e em constante sofrimento, sem glória, sem sorrisos, constroem arduamente um mundo habitado pela violência e escravidão: “Não me exijas glórias / que sou eu o soldado desconhecido".

Lugar e representação da infância e da memória na lírica de Manuel Bandeira


O presente ensaio tem por objetivo abordar o lugar e a representação da infância e da memória na lírica de Manuel Bandeira, mostrando como esse tema se apresenta como uma possibilidade de recuperação de plenitude, porém falha em seu intento, embora seja, o esforço, vigoroso, é irrecuperável. É dizer: essa experiência literária como tentativa de superação humana.
            Para esse objetivo foram selecionados treze poemas, dentre as obras do poeta, em uma perspectiva cronológica (1924 – 1960) e em seguida realizado um breve diálogo entre eles. Portanto temos, a seguir, a coletânea dos seguintes poemas: “Balõezinhos”, “Minha Terra” e “Na Rua do Sabão”, do livro: “O Ritmo Dissoluto” publicado em 1924; “Porquinho-da-Índia” e “Profundamente” de “Libertinagem”, 1930; “Trem de Ferro” de “Estrela da Manhã”, 1936; “Versos de Natal” de “Lira dos Cinquent’anos”, 1940; “Infância”, de “Belo Belo”, 1948; “Elegia de Verão”, “Natal sem Sinos”, e “Tema e Variações” do “Opus 10”, 1952; e por fim “A onda” e “Recife” de “Estrela da Tarde”, 1960.
            Iniciamos o propósito desse ensaio apresentando primeiramente o poema “Balõezinhos” em que o lugar: “Na feira livre do arrebaldezinho” (BANDEIRA, 1993, p. 120) traz a representação da infância e da memória por meio da lírica do poeta. Nesse poema é possível também observar como esse espaço e seus personagens atuam na criação de uma cena prosaica cotidiana, em que a memória aliada à infância recria uma atmosfera lúdica e pueril. Ainda sob uma perspectiva infantil, tendo aqui apenas um único propósito de valoração, “[os meninos pobres] sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável” (BANDEIRA, 1993, p. 121), pois o que é importante, essencial, necessário para a criança ainda é o sonho, o desejo, a brincadeira.
Também é possível observar o lugar, no poema “Minha Terra”, como memória de um passado já distante: “Saí menino de minha terra / Passei trinta anos longe dela” (BANDEIRA, 1993, p. 201) em que a revisitação traz uma realidade incômoda e frustrante para o sujeito poético em que esbraveja ao discordar com a adjetivação que dão ao seu Recife, “É hoje uma bonita cidade. / Diabo leve quem pôs bonita a minha terra! ”. (BANDEIRA, 1993, p.201).
Podemos encontrar também em “Na rua do sabão” esse sentimento de recuperação de plenitude por meio das imagens infantis que povoam todo o poema. Iniciado a partir de uma alusão a um refrão popular, essa retomada instala uma identidade da primeira infância no poema em que permite uma viagem no tempo. Há também outros elementos que podem representar a infância ao longo do poema como a gritaria maldosa da molecada na rua e a vontade que as crianças tinham em que caísse o balão. Assim como neste e em outros poemas é possível associar a leitura biográfica do poeta com a manifestação do eu lírico, especialmente aqui, ao relatar quem fez o balãozinho de papel foi o filho da lavadeira, “um que trabalha na composição do jornal e tosse muito” (BANDEIRA, 1993, p. 119), faz com que o leitor se aproprie dessa aproximação em uma possível leitura.
“Porquinho-da-Índia” e “Profundamente, publicados em 1930 no livro “Libertinagem”, também retomam a ternura que o eu lírico imprime em seus versos. O primeiro nos apoia em uma interpretação das primeiras experiências, da criança de seis anos ao amar seu animalzinho de estimação e tê-lo como a sua primeira namorada, e ainda das primeiras frustrações, de não ser correspondido: “não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...” (BANDEIRA, 1993, p. 130). O segundo remete a um lugar festivo em que o sujeito poético é impossibilitado de acompanhar, tal lugar é alegre e iluminado, há cantos e risos. “Quando eu tinha seis anos / não pude ver o fim da festa de São João” (BANDEIRA, 1993, p. 139). Esse poema pode levar o leitor a dois núcleos temporais, um passado: da infância, da festa; e um presente: em que o eu lírico relembra saudosamente aquele tempo. Ambos núcleos há o sono, porém com sentidos diferentes, enquanto na primeira parte do poema o sono é associado ao seu sentido literal, de adormecer: “estavam todos dormindo”, a segunda parte o sono está associado a morte: “estão todos dormindo”. 
“Trem de Ferro” publicado no livro “Estrela da Tarde” de 1960, também representa essa infância recuperada por meio da poesia de Manuel Bandeira. O ritmo do poema alude ao ritmo do trem, esse caráter lúdico alinhado a sua musicalidade pode ser um exemplo de uma busca da criança dentro de cada um, em que independentemente da idade, nos leva pela velocidade e balanço das linhas.
“Versos de Natal”, poema publicado no livro “Lira dos Cinquent’anos” de 1940, nos pode revelar a ideia do “menino que não quer morrer” (BANDEIRA, 1993, p. 171), esse menino, que agora não tão menino assim, devido a implacável ação do tempo, “pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta [na véspera do Natal]” (BANDEIRA, 1993, p. 171).
“Infância”, de “Belo Belo”, publicado em 1948 traz diversos lugares de uma infância rememorada. Inicialmente Petrópolis e aspectos como uma corrida de ciclistas, um bambual debruçado no rio e brinquedos pelo chão trazem ao leitor um cenário simples em que o sujeito poético se rende a impossibilidade de “romper os ruços definitivos do tempo” (BANDEIRA, 1993, p. 208). Ainda nesse poema há outros lugares, como a casa de São Paulo, a praia de Santos, Petrópolis novamente, Pernambuco, a casa da Rua União, que criam essa atmosfera nostálgica e saudosa. Este poema também é possível associar as suas enumerações de lugares, de feitos, de lembranças a uma leitura biográfica encerrada com o quarteto: “Com dez anos vim para o Rio. / Conhecia a vida em suas verdades essenciais. / Estava maduro para o sofrimento / E para a poesia! ” (BANDEIRA, 1993, p. 209).
Em “Opus 10”, livro publicado em 1952 em que os poemas: “Elegia de Verão”, “Natal sem Sinos”, “Retrato” e “Tema e Variações” são outros exemplos do tema aqui explorado. As citações a seguir reforçam essa natureza do eu poético em estabelecer vínculo a suas memórias, porém sabe que tudo mudou, ou seja, nada é hoje como era antes: “Zinem as cigarras: zino, zino, zino... / Como se fossem as mesmas / Que eu ouvi menino”; “Ó verões de antigamente! ”; “Não são as mesmas que eu ouvi menino”; “Deem-me as cigarras que eu ouvi menino”. (BANDEIRA, 1993, p. 215).  “Natal sem Sinos” volta a uma infância desde o lugar do presente, a observação através do prisma da memória continua sendo nostálgica. Os sinos, do passado, podem ser associados ao barulho das crianças: “Ah meninos sinos / De quando eu menino! ” (BANDEIRA, 1993, p. 220) em que na altura o sujeito poético já não mais o encontra: “A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos [presente] do meu Natal sem sinos [passado]” (BANDEIRA, 1993, p. 220). “Tema e Variações” é um outro poema desse livro que alude a ideia de tempo passado, mas agora não é explícito a marca da infância, porém se pode sugerir que a infância, por ser tão cara e rememorada de maneira terna e saudosa pode ser também um dos possíveis ideais de sonho. Porém ao despertar para se deparar com a realidade, o sentimento experimentado é triste, é pranto. Podemos inferir que “Ter estado” (BANDEIRA, 1993, p. 215) menino é motivo de sonho agora e que a única realidade possível é chorar de repente ao despertar e concluir que tivera sonhado.
Por fim os poemas: “A onda” e “Recife” de “Estrela da Tarde”, 1960 finalizam a tentativa de abordar o lugar e a representação da infância e da memória na lírica de Manuel Bandeira. O poema “A onda” é composto por 10 versos curtos; em um caráter lúdico mistura as palavras “onda”, “aonde, “anda” e “ainda” (BANDEIRA, 1993, p. 267) em um jogo de sons convertendo-as em ritmo e movimento. “Recife” é o poema que irá recordar o passado, a infância, a partir do presente, traz a perspectiva de desculpa ou justificativa nos primeiros versos, segue na seguinte estrofe o sentimento de saudade e perpétuo lembrar. O eu poético também esclarece que sua saudade é sentida, porém uma saudade do “Recife de antes” como nos diz na terceira estrofe: “Não como és hoje, / Mas como eras na minha infância, / Quando as crianças brincavam no meio da rua” (BANDEIRA, 1993, p. 249). Seguidamente vai pontuando o lugar do passado e se questiona sobre os personagens de outrora e por fim reflete para que servem estátuas, e uma possível eternização por meio de um busto, para o eu poético “se possível, / Um cantinho no céu” (BANDEIRA, 1993, p. 249).

A Invenção da Infância: seu contexto e seu enunciado

Neste trabalho, examinaremos o contexto e o enunciado de pessoas, especificamente mães e crianças, presentes no documentário “A Invenção da Infância”. Lançado em 2000 e produzido por Liliana Sulzbach e Mônica Schmiedt, no Rio Grande do Sul, com duração de 26 minutos, o documentário reflete sobre o que é ser criança e a relação com a infância.
Para isso usaremos o conceito da Pragmática, conforme Fiorin (2015, p. 166) “é a ciência do uso linguístico, estuda as condições que governam a utilização da linguagem, a prática linguística”, assim como ela “deve explicar como os falantes são capazes de entender não literalmente uma dada expressão, [...] devem mostrar como se fazem inferências necessárias para chegar ao sentido dos enunciados”. (FIORIN, 2015, p. 168). Também, para este breve estudo, usaremos os princípios e métodos de Catherine Kerbrat-Orecchioni, que conceitualiza a análise das conversações, o contexto e o material verbal, paraverbal e não verbal.
Por fim, tentaremos entender os processos pragmáticos que permeiam os discursos analisados e seus contextos a fim de aplicar ao material analisado os procedimentos teóricos propostos para a atribuição de sentido.


            As reflexões e análises deste trabalho são fundamentadas a partir da linguagem em uso defendidas por Fiorin (2005) e pelos conceitos da análise da conversação prescritos por Kerbrat-Orecchioni (2006).
            Conforme menciona Fiorin (2005, p. 166) “a Pragmática é a ciência do uso linguístico, estuda as condições que governam a utilização da linguagem, a prática linguística”, usaremos esse referencial teórico para observar, em alguns trechos do documentário, a linguagem em uso. Usaremos também a vocação comunicativa da linguagem verbal, o que seria conforme os postulados de Kerbrat-Orecchioni (2006) a efetividade do exercício da fala, que implica normalmente uma alocução e ainda uma interlocução promovendo uma interação.
            Conforme Kerbrat-Orecchioni (2006) o contexto, também chamado como situação comunicativa, é a mescla dos seguintes elementos: o quadro espacial e o quadro temporal, o objetivo global da interação, e seus participantes, tendo seus papeis interlocutivos assinalados, assim “as conversações são ‘construções coletivas’ feitas de palavras, mas também de silêncios e de entonações, de gestos, de mímicas e de posturas” (Kerbrat-Orecchioni, 2006, p. 36), em que esses mecanismos de construção dialógica são conceitos postulados pela autora que os apresenta como material verbal, paraverbal e não verbal.
            Para Fiorin (2006, p. 169) “a Pragmática concebe que as chamadas palavras do discurso [...], cuja função varia de acordo com o contexto linguístico em que se acham colocadas; significam porque há uma instrução sobre a maneira de interpretá-las.
            Nesse sentido iremos analisar os fragmentos do documentário interagindo com essas teorias a fim de evidenciar o contexto e o discurso presente nesse gênero.


            Fora assistido o documentário “A invenção da infância” e escolhidos trechos dos enunciados proferidos por um grupo de pessoas. Divididos esses trechos em 3 grupos, a saber: grupo 1, “as mães”; grupo 2, “as crianças A”; grupo 3, “as crianças B”.

Grupo 1: As mães
Linha
Mãe
Tempo
Enunciado
01
M1
03:38
Sou mãe de nove, aliás dez. Dois morreru.
02
M2
03:55
Dois eu tenho vivo i quatro morreu.
03
M3
04:05
Morreru assim de repente, sei lá!
04
M4
04:15
Morreu ... ((pensativa), morreu de morte ((rindo))
05
M5
04:31
Tive 28 ... 28 filho, tem 7 vivo ... oliás tenho 6... é são 6 filho

Grupo 2: As crianças A
Linha
Criança
Tempo
Enunciado
01
CA1
06:59
Ah, eu faço um monte de coisa, ando de bicicleta, ando de patins.
02
CA2
07:47
Jogar videogame... jogar bola
03
CA3
09:04
Às vezes eu durmo direto que tô muito cansada
04
CA4
09:15
Carrego um pouco assim esse monte de coisa que a gente tem pra fazer
05
CA5
14:34
Eu faço balé e faço natação (...) e vôlei na escola

Grupo 3: As crianças B
Linha
Criança
Tempo
Enunciado
01
CB1
07:12
Brinco mais os amigos, de bola, de revólver, de um bucado de brincadeira mais.
02
CB2
07:42
Matá passarinho, ( )
03
CB3
08:43
Eu acho que não trabalho porque não tem jeito de não trabalhá memo.
04
CB4
09:19
Trabalho aqui pra quando eu cresce eu ajudá o meu pai a trabaiá.
05
CB5
09:51
O trabalho aqui é bão ... trabalha na sombra ... não toma sol, porisso que é bão.


Grupo 1: As mães

            Contexto: Bahia. As mães aparecem no início do documentário, após uma pequena introdução sobre descobertas científicas de características sociais e históricas de maneira progressiva até chegarem ao Brasil. Desse modo o documentário conduz o receptor a partir do Renascimento, período de grandes descobertas, passando por Colombo, descobrir da América e finalmente a Cabral que descobriu o Brasil.
            Em seguida podemos observar diversas cenas de vidas urbanas e rurais com suas comunidades e divididas por realidades distintas. Dá ênfase as cenas com crianças desprotegidas e vulneráveis, em um ambiente árido, ensolarado, com poucos recursos.
            A primeira cena de fala ocorre pela M1, antes disso há um grupo de crianças, carregando um pequeno caixão, sobre uma rua larga de areia, enquanto um porco atravessa a mesma rua. M1 está à janela, de madeira, sustentando seu filho bebê, mais três outras crianças ao seu lado e enuncia: “Sou mãe de nove, aliás dez. Dois morreru”. A segunda cena de fala acontece quando M2, está sentada ao lado da porta de sua casa e há uma pequena criança bocejando, enuncia: “Dois eu tenho vivo i quatro morreu”. Os demais enunciados, M3: “Morreru assim de repente, sei lá!”, M4: “Morreu ... ((pensativa), morreu de morte ((rindo))”, M5: “Tive 28 ... 28 filho, tem 7 vivo ... oliás tenho 6... é são 6 filho”, apresentam um contexto comum, ou seja, todas as mães perderam seus filhos por doenças, fome, necessidades. Estão todas em situações de vulnerabilidade social, privadas de necessitadas de básicas.
            Objetivo: O objetivo inicial do documentário é situar ao receptor qual momento está sendo retrato, as condições dos indivíduos, a localização geográfica e as práticas dessa comunidade, assim como as dificuldades e as consequências sofridas por essas pessoas nesse momento.
           Participantes: Não há uma conversão face a face, pois as mães vão falando e sendo registradas pela câmera, mas é possível inferir que são perguntadas a elas, embora as perguntas não são mostradas. São características comuns dessas mães: a mortalidade infantil de seus filhos, o trabalho para a manutenção da família, a pobreza generalizada, a escassez de recursos e a quantidade de filhos que se assomam.

Grupo 2: As crianças A

            Contexto: São Paulo. O lugar desse grupo de crianças é fechado, ou seja, estão no parquinho de um condomínio residencial, em uma cadeira ao lado da piscina, em uma sala, sobre um sofá em que pela janela é possível observar que esse ambiente é um prédio, pois se vê uma tela de proteção e casas abaixo.
            As atividades dessas crianças são descritas pela CA1: “Ah, eu faço um monte de coisa, ando de bicicleta, ando de patins” e pela CA2: “Jogar videogame... jogar bola”, como atividades comuns de crianças.
      Objetivo: Intenciona-se retratar a vida da criança, seus afazeres e suas responsabilidades, de modo que podemos inferir que é, aparentemente, diferente da vida de um adulto. Em suas falas há descrições reais sobre comportamentos, do que gostam e também o que desgostam.
            Participantes: As crianças são mostradas fazendo aulas de balé, falando com a câmera no sofá ou em uma cadeira ao lado da piscina. Refletem um discurso de obrigações impostas, durante o dia, que as deixam exauridas como: CA3: “Às vezes eu durmo direto que tô muito cansada”, CA4: “Carrego um pouco assim esse monte de coisa que a gente tem pra fazer” e CA5: “Eu faço balé e faço natação (...) e vôlei na escola”.

Grupo 3: As crianças B

     Contexto: Bahia. O lugar desse grupo de crianças é aberto, ou seja, suas atividades se dão ao ar livre sem a proteção física de uma casa por exemplo. CB1 enuncia: “Brinco mais os amigos, de bola, de revólver, de um bucado de brincadeira mais”, e “Matá passarinho, ( )” conforme confessa CB2. Esse grupo brinca à rua, descalços, descamisados e com brinquedos feitos por eles próprios de acordo com a sua imaginação.
     Objetivo: É notório observar a rotina similar que a criança suporta como o adulto de seu meio, embora apresentem desejo de brincar, são levadas a buscarem melhores condições financeiras exigindo esforços e sacrifícios ao trabalho manual e pesado. É possível inferir um grau alto de responsabilidade das crianças para com a suas famílias, como enuncia CB4: “Trabalho aqui pra quando eu cresce eu ajudá o meu pai a trabaiá”, CB3 já se conforma com a situação em que se encontra: “Eu acho que não trabalho porque não tem jeito de não trabalhá memo”.
      Participantes: As crianças enunciam diante da câmera enquanto outras são mostradas sentadas ao chão, quebrando pedras, em um trabalho de grande esforço, descalças, sem proteção contra o sol escaldante, descamisadas. Em outra cena, CB5 revela o motivo de gostar de trabalhar alí, que parece ser outro lugar: “O trabalho aqui é bão ... trabalha na sombra ... não toma sol, porisso que é bão”. Em seguida descrevem o pouco que ganham, para que estão trabalhando dessa maneira, e o que gostariam.
  

            Os enunciados aqui estudados pertencem a um campo semântico que podemos mencionar como “infância”, é dizer, apresentam características como comportamentos, ações, desejos, aspectos físicos, idades, mesmo o grupo 1, que parece bem distanciado em relação as crianças, pode-se inferir que também se enquadra nesse campo, por serem estas vítimas da mortalidade e tristeza de suas mães.
            Por meio das teorias de Fiorin (2005) e de Kerbrat-Orecchioni (2006) podemos reconhecer a necessidade dos marcadores linguísticos que auxiliam na produção de sentido, assim como a noção de interação e de conversação. Também a necessidade do contexto: o lugar, o objetivo e os participantes, para a atribuição de sentido e a eficácia na contextualização dos enunciados.
            Portanto é possível conferir ao estudo um caráter reflexivo, a partir do corpus analisado, podendo levar ao leitor a reunir a noção de contexto pertinente para cada um dos grupos, e ser possível uma avaliação.
Ao final do documentário a frase: “Ser criança não significa ter infância”, remete a uma ideia de privação de um tempo determinado por obrigação ou comprometimento, enquanto umas crianças mais que outras, mas todas sendo impedidas de ter infância, renegadas a comportamentos adultos por falhas ou por ordens. 

           
Referências

FIORIN, J. L. A linguagem em uso. In: ______ (Org.). Introdução à linguística I: objetos teóricos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2005.

KERBRAT-ORECCHIONI, Catherine. Análise da conversação: Princípios e métodos. São Paulo: Parábola Editorial, 2006. Tradução de Carlos Piovezani Filho.

SULZBACH, Liliana. A Invenção da Infância. 2000. In Portacurtas. Disponível em: . Acesso em: 24 nov. 2018.