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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Quem são eles? - Cena V


CENA V
Fernando

É manhã. Fernando acorda atrasado, os raios de sol penetram pela janela aberta pousando sobre seus pés. Olha para o despertador e são 9 horas. Levanta da cama em um impulso e vai trocando de roupa rapidamente e pensando alto.

            Fernando – (assustado) Meu Pai do céu! Estou atrasado. (olhando para o despertador) Eu me esqueci de colocar para despertar! Que noite foi essa? Tenho que escrever, melhor tenho que ligar, para os meus amigos. Sinto tanto saudades e essa rotina louca me prende ou será que sou eu que me deixo ser escravizado por ela? Mas agora não dá tempo, hoje tenho uma entrevista, vou deixar para mais tarde, melhor quando eu estiver mais calmo, talvez na próxima segunda-feira.

            (Fernando busca seu outro par de sapatos, os calça, coloca algumas cartas na mochila, se aproxima da porta e olha para trás).

            Fernando – (Triste) Bom, quartinho, fique bem, mais tarde eu volto para dormir e repetir essa rotina que escolhi.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Quem são eles? - Cena IV


CENA IV
João (Leitão), Fernando

O quarto continua escuro. Fernando abre a gaveta do criado mudo e toma nas mãos uma caixa de fósforos. Risca-o na lateral da caixa e acende o toco de vela ajustando-o no castiçal. Apoia o castiçal na escrivaninha, organiza os envelopes em cima dela.

            Fernando (refletindo) – Se eu contar isso a alguém já não terão dúvidas da minha insanidade. Clarice – a Estrela, Manoel – o Pantanal, só me faltava agora o João – o Leitão...
            João – Você me chamou Pessoa?
            Fernando (Se vira bruscamente após ouvir as palavras de João) – Ah não, estou louco mesmo!
            João – O que você disse menino?
            Fernando (cansado e convencido com aquelas aparições inusitadas) – Nada.
            João – Pois bem, o que lhe afilhe Pessoa?
            Fernando – Não sei por onde começar, não sei nem porque estou falando com alguém que não tenho a certeza que está aqui. São tantos nãos sei na minha cabeça, que duvido da realidade e é embaçado o meu raciocínio.
            João – Vamos tentar ser simples, sem buscar uma resposta para todas as perguntas sem respostas da vida. Essas cartas que estão ai são de quem?
            Fernando – De quem mais poderiam ser? Suas, da Clarice, do Manoel. E parece que hoje resolveram me visitar todos, talvez uma ilusão criada pela minha mente para pregar uma peça grande, um caminho para que eu me reconheça tão louco como me dizem.
            João (sorrindo) – Sempre dramático esse menino. Nada mais comum em falar com amigos, mesmo quando para alguns parece loucura se eles não estão fisicamente próximos. (mudando de tom, mais sério) Pare de tentar ser aceito por medíocres que nem tenham ideia do que é viver. Apenas se limite a respeitá-los e se distancie para que aquela atmosfera não o contagie.
            Fernando (parando junto à janela) – A Clarice disse que era para olhar para lá, além dessa janela, ela me perguntou o que eu vejo. O que você vê?
            João (sorrindo) Eu vejo pessoas, o que você vê?
            Fernando (sorrindo) – Você sempre tonto. (mais sério) Como assim pessoas? É um terreno baldio, infértil, que ninguém quer. Abandonado a sua própria sorte, sujo de lixo, mantido por irresponsáveis, produtor de ratos asquerosos.
            João (se distancia da janela e se aproxima da porta) – Cada indivíduo vê o que quer ou o que consegue, não é? Podia dizê-lo que através dessa janela há um horizonte cheio de oportunidades. Talvez pudesse dizer que não há nada além de uma noite fria. O céu é um lugar compartilhado por todos, veja o céu.
            Fernando (incrédulo) – O que você está dizendo, Leitão?
            João (rindo) – Agora você me chama de Leitão? Isso era no tempo da faculdade, você ainda preserva esses nomes para se sentir mais próximo de nós, não é verdade? Algo como se fosse à palavra mágica da aproximação, do segredo de intimidade. Isso é bom, é bom meu amigo. (sério) Pessoa, quantos humanos estão tentando sobrevier aos conflitos internos e externos que são submetidos diariamente? Não quero que você pense que estou generalizando para que a sua dor se torne menor, não! Estou dizendo que estamos todos sobre o mesmo céu. Consegue entender isso?
            Fernando – Acho que sim. Mas já não tenho energia. Olhe para esse quarto, olhe aonde cheguei depois de todas aquelas aulas na universidade, aqueles empregos mal remunerados, as notas boas, a alegria de defender a tese, os abraços de vocês. Só me restaram lembranças e a realidade não tem unidade básica, não tem diálogo, só um monólogo aparente que disfarço entre sons de minha própria voz. Ela é tão bizarra, pois mais que falem ao seu respeito, nenhuma realidade é tão crua e nua como a própria vivida. Sou o pagador de promessas que ama seu burro que o chamo de vida. Pareço louco?
            João – Parece-me normal. Afinal o normal é o anormal, pois o que é normal, Pessoa?
            Fernando – Normal, como dizem, é ter uma vida economicamente estável, para ser feliz cuidando da família, dos animais de estimação e voltar para a casa sem muitos conflitos e conseguir dormir. Ser normal é ter uma rotina, um teto, algo para preencher o tempo e dormir. Acho que ser normal é participar de um ciclo vicioso, ser embalagem da representação social, ser comum ao ponto de ser um número. (voz embargada) É acreditar em algo, mas deixar esse algo em que se acredita secar, e enquanto isso ir postergando até que não dê mais tempo para alcançá-lo. Ser normal é ser covarde, é não respeitar os outros como eles são e ditar seu comportamento por meio da sua embalagem cuidadosamente mantida cotidianamente. (cabisbaixo) Sou normal, Leitão.

            A vela acaba restabelecendo a escuridão do quarto. Não se vê e não se houve mais nada.

domingo, 2 de abril de 2017

Quem são eles? - Cena III


CENA III
Manoel (Pantanal), Fernando

O poste de luz recuperou a sua luminosidade e agora não piscava tão frequentemente. O quarto volta a ter a iluminação pública como a única forma de luz. Fernando sai da janela, se aproxima da cama, passa as mãos no rosto e suspira. Busca uma camiseta seca depositada no mancebo e troca a camisa molhada, troca também à calça por uma bermuda.
            Fernando – O que está acontecendo comigo? (volta-se diante a escrivaninha, olha a última carta enviada por Clarice, toma a carta de Manoel nas mãos e pensa olhando para um ponto qualquer da parede. Nesse instante o poste pisca novamente e Manoel aparece no quarto, ao lado da cama, atrás de Fernando, com um chapéu de palha de abas largas vestindo uma camisa listrada, uma calça jeans, um par de longas perneiras de couro, e nos pés botinas com elástico.).
            Fernando (vira-se para trás e exclama assustado) – Ai Jesus! Manoel? (duvidando) Quem é você?
            Manoel (zombeteiro) – Sou ninguém. Claro que sou o Manoel, o pantanal, já se esquecera de mim? Li a sua carta na semana passada.
            Fernando (ainda incrédulo tenta entender essa situação atípica fixando os olhos em direção ao amigo para acreditar naquela visão e exclama) – Mas como?
            Manoel (sério) – Pessoa! Acredito que é hora de me despedir.
            Fernando (impactado e triste) – Você também morreu? (olha para cima com a expressão de incredulidade) Não é possível, o que está acontecendo comigo? Só pode ser um sonho, um pesadelo.
            Manoel – Não morri, embora vamos todos morrendo a cada dia, isso ninguém fala, pois parece obvio demais, não é? Bom, o que interessa é que a minha partida é para o Pantanal.
            Fernando (surpreso) – O Pantanal? O lugar que você sempre quis estar? E inventava aqueles planos mirabolantes nas nossas conversas de vida nova, contato e prática com a natureza?
            Manoel – Pois é, meu amigo. Vou ser pesquisador em um grupo na UFPan, Estudos fronteiriços.
            Fernando – O quê? Que orgulho meu amigo. Você sempre se simpatizou por essa terra, que nunca viu fronteiras e sempre criava palavras novas rompendo tais barreiras verbais. Estou muito feliz por você. Embora eu desconheça ao certo o que isso significa, confio na sua capacidade de seleção e conheço a sua vontade de pertencer a esse ambiente.
            Manoel (olhando para o chão) – Obrigado Pessoa. Mas não é só isso que me traz aqui. Gostaria de insistir na ideia da contemplação da natureza. Vai parecer uma ladainha, que por você é tão conhecida, mas falo sério. O tempo não para e precisamos parar restabelecendo a nossa energia, definir novos rumos e acredito que só a observação da natureza pode trazer esse estágio mais equilibrado a você.
            Fernando (impaciente) – Já sei que me vai dizer... Que ando rápido demais, que nunca tenho tempo, que minha rotina me esgota. (eleva-se a voz) Isso eu sei, eu vivo isso. Pantanal (voz embargada) eu me sinto como a música da Adriana Calcanhoto, sabe aquela parte:

“Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim”. (Adriana Calcanhoto, A Fábrica do Poema, 1994).

Fernando (triste) – Confundo a vida com os quadros do Edward Hopper. Pra mim é a moldura mais apropriada nesses meus tempos. Você o conhece?
Manoel (pensativo) – Aquele americano que pintava sobre a solidão no mundo contemporâneo?
Fernando – Sim, é meio triste pensar assim, não?
Manoel – Não exatamente, afinal quem nunca se sentiu assim?
Fernando (suspira) – Ah, Pantanal. Hoje sou aquela mulher, do quadro: “Morning sun” de 1952.  Olho pela janela com olhos de nada ver, perdidos em pensamentos. (pausa) Quando não consigo me expressar, recorro à arte para ser o mecanismo das minhas metáforas.
            Manoel (sereno) – Não conheço esse quadro, afinal só conheço o mais famoso, o... (tentando lembrar) “Nighthawks”. (mudando de assunto) Acalme-se! Hoje não foi um bom dia para você. Talvez saiba que a Estrela morreu.
            Fernando (voz triste, cabisbaixo) – Sim, eu soube.
            Manoel (continua sereno) – Pois bem, com essa correria não notamos que ela estava bem apagadinha, estava sempre cansada, não tinha apetite, muito magra e rouca, pálida, pensámos que era o efeito da dieta e sempre a repreendia, pedindo que tomasse atenção, e do nada... Pois a morte sempre acontece assim, não? Do nada, ela foi diagnosticada com tuberculose e morreu na sexta-feira no Rio de Janeiro.
            Fernando (assustado) – Ela não foi atropelada?
            Manoel (surpreso) – Atropelada? Não! Foi tuberculose, a sua mãe me disse. Talvez ela quisesse ter sido, não me espanta. Clarice sempre escondia o real motivo de seus infortúnios. Algo comum entre os humanos, não? Tudo um modelo escondido.
            Fernando (senta na cadeira e abaixa a cabeça olhando para o chão em silêncio).
            Manoel – Foi difícil para todos nós, acredito ainda mais para você. Quando soube tive vontade de correr até aqui e sacudir você. Não posso deixar mais um amigo partir sem que eu, ao menos, o diga que há vida diferente dessa rotina existencial que nos convencemos a viver. É claro que há medos, inseguranças, mas há que tentar mudar, se autoconhecer.
            Fernando (impaciente) – Você novamente com esse discurso, parece autoajuda.
            Manoel (sereno) – São sempre um paradoxo os significados das palavras, os discursos não representam em sua totalidade o que desejamos expressar. Para você soa como se fosse algo piedoso. Longe de sugerir a você um caminho a prosseguir e ter perfeitamente a resolução de seus problemas íntimos, tento nesse diálogo curto fazer perceber a sua grandiosidade de realizar. O passado e o futuro não existem, é no presente que você tem as possibilidades. “Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias - do mundo e as nossas.” (Citação do poeta brasileiro Manoel de Barros).
            Fernando (calmo) – Você está certo, Pantanal. Às vezes estamos em um conflito interno tão tempestuoso que não ouvimos direito, não conseguimos enxergar um palmo a frente dos olhos com claridade. Acredito que preciso de uma boa noite de sono, equilibrar as ideias.
            Manoel – Eu já estava de saída, fique bem e me escreva. Um abraço.
            Fernando (apressado) – Manoel...

A luz do quarto se vai, com ela Manoel, o poste retira a luz que entrava pela janela permanecendo, há apenas um breu e Fernando, solitário, envolto em seus pensamentos tortuosos em companhia de uma brisa noturna que invade a janela. 

sábado, 1 de abril de 2017

Quem são eles? - Cena II


CENA II
Clarice (Estrela), Fernando

            Fernando (olhando para a plateia com voz embargada começa o seu monólogo) – Ah! Clarice, nós a chamávamos de Estrela, pois desde que a conhecíamos lá no ensino médio. Sagitariana, intelectual, aventureira, modesta, animada. Também era aquela menina de grande luminosidade, de sorriso largo, de abraço sincero. Ficamos amigos por afinidades.
            Em cena, ao fundo, Clarice, a Estrela, aparece. Vestida de um vestido branco curto, de cabelos soltos e brincos brilhantes. Fernando continua a ler a carta como se o diálogo entre eles fosse conduzido por essa mesma carta.
            Fernando – (continua sentado na cadeira, olha por trás de suas costas e se arrepia um susto o sobressalta e vê Clarice tomando forma. Ele se precipita a levantar e a tocá-la).
            Clarice – Pare! Não me toque. Parece um pouco bruto dizer isso a um grande amigo, mas o toque é sensação humana, real. Estou aqui através dessa caligrafia irregular, de uma tentativa frustrada de uso da norma padrão, que se não bloqueia, exclui, falamos oralmente, pois é nesse campo que tenho liberdade para expressar aquilo que compartimos sem a pressão da consulta de Celso Cunha e Lindley Cintra.
            Fernando (ainda não entende o que está acontecendo, um pouco perplexo vacila e pergunta) – Como isso? Estrela?
            Clarice (como se parecesse óbvio essa aparição, sorri e responde) – Quem mais poderia ser? Trump? O pato Donald? Amigo...  (pausa) o que você está sentindo é tão comum a todos nós que me envergonho de falar o evidente. Entendo que o óbvio é subjetivo e que cada um lê conforme as suas experiências, por isso, muitas vezes, as minhas cartas estavam inconclusas, frases de espaços a preencher, fora proposital. Saiba que sinto saudades das nossas conversas na universidade e estranho até hoje seu gosto por café amargo, sem açúcar ou adoçante, mas já não estranho a sua peculiaridade diante às impressões mundanas. Ah! Não venho trazer a paz, mas a espada. Esse conflito vivido é tão natural como o céu é azul.
            Fernando (ouve tudo estarrecido tentando assimilar aquela cena e fala consigo mesmo) – Ai Jesus! Devo ter chegado ao estágio de alucinações...
            Clarice (interrompe e grita) – Pessoa! Olhe para mim.
            Fernando (olha rapidamente para Clarice com cara de espanto)
            Clarice (fatigada) – Depois de tanto tempo fisicamente longe, de todas essas cartas, você ainda quer perder tempo com essa baboseira de susto? Olhe para frente, pela janela, há um terreno baldio? Ou há um mundo? Há lixo ou há reflexo? (Fernando se levanta e olha para a janela – plateia).

            (Enquanto Clarice fala Fernando a ouvi olhando pela janela)

            Clarice – Sabe o Zygmunt Bauman?
            Fernando – Mais ou menos.
            Clarice – Então, morreu semana passada e ele disse que: “as redes sociais são uma armadilha”. É, parece mesmo um artifício para os fugitivos da solidão. Como você sobrevive sem energia elétrica?
            Fernando – É por pouco tempo, Estrela.
            Clarice – Ah, você sempre tão carinhoso, ainda não esqueceu o meu apelido de tempo escolar, obrigado por manter esse vocativo. Então, depois que ele morreu, as redes sociais trouxeram seus escritos e ele escreveu algo sobre amor líquido, mas eu não entendi muito bem, acredito que tem a ver com as nossas relações efêmeras e descreve essa fragilidade humana sobre o rótulo de amor líquido. Ah, por favor, se você ler algo sobre isso me escreva rapidamente. Gostaria de saber a sua opinião, talvez você possa me esclarecer sobre a minha condição. Hoje carrego o fado de uma vida incerta, acho que também estou incrédula sobre as superficialidades dos meus relacionamentos e isso reflete nas postagens minhas no Facebook. Lá eu encontro um caos frequente de ódio e revolta, a maioria são pseudoanalistas políticos e sociais de cadeiras confortáveis e dedos ágeis dotados de uma precária competência emocional.
            Fernando (volta-se a olhar para dentro do quarto com nervosismo) – Estrela, para! O que você veio fazer?
            Clarice (ruborizada) – ah, desculpa! Bom, eu acho que vim para me despedir e tentei inventar uma história, pois me arrependi ao encontrar você assim, tão... perto.
            Fernando (assustado) – Despedir?
            Clarice (rápida) – Eu morri atropelada.
            Fernando (pasmo) – Como isso aconteceu?
A imagem da estrela se apagou, no justo momento em que a única luz que mantinha a claridade do diálogo se desfez. O poste de luz continuava a piscar, na sua incansável epilepsia.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Quem são eles? - Cena I

Quem são eles?



DRAMA

            Uma epifania, um fluxo de consciência, uma hipótese qualquer, um indivíduo. HMM... Modelos escondidos.

PESSOAS

Fernando
Clarice (Estrela)
Manoel (Pantanal)
João (Leitão)
Alberto (Sapo Cururu)

Lugar de cena: Um quarto de dormir


PRIMEIRO ATO

            Quarto estreito e com pouca claridade. Recebe pequena quantidade de luz da iluminação pública, que provém de um poste de esquina que pisca sua lâmpada epilética. Mancebo, cômoda, cama de solteiro, colcha de retalhos, travesseiro Ce Soir, castiçal de latão solitário com regulador de altura, toco de vela sobre um criado mudo revestido por jornais velhos, um despertador, dezenas de envelopes abertos e cartas dobradas sobre uma escrivaninha de madeira. Na frente da cama, uma cadeira de plástico e uma janela aberta, donde se vê um terreno baldio. – É começo da noite.



CENA I
Fernando

FERNANDO abre a porta do quarto, os pés descalços, todo molhado, coloca sua mochila sobre a cama e seca seu cabelo na toalha depositada em cima da cadeira. Abre o vidro da janela e já não chove.

            FERNANDO (conversa consigo mesmo olhando para o céu através da janela) –
Depois de um dia comum, volto para a casa todo molhado, roubado. Sem sapatos, sem vontade de continuar. Penso sobre essa vida medíocre que vivo nesse quarto sem luz, recebendo cartas de amigos distantes, inquilinos de minha memória. Tratado e sofrido por um transtorno dissociativo de identidade, mas nunca diagnosticado, fruto de uma mente criativa, renegada à margem de uma sarjeta da própria insignificância. Um procrastinador de tarefas imediatas, de compromissos firmados sem o desejo de cumpri-los. (Suspiro.) Ah! Se soubessem como tenho sido um ator na peça da vida cotidiana, um fingidor encarando as segundas-feiras com entusiasmo e resignação longe de apresentar a realidade padecida, que a trago guardada em meu peito e quase nunca rompe o silêncio selado por meus lábios finos. (Torna a suspirar, gira a cabeça para dentro do quarto e olha para a escrivaninha, puxa a cadeira de plástico branca para frente dela, se senta e abre uma carta dobrada.).