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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ao som de Yiruma, River flows in you em Nada.




Sobre a lápide fria de um norte acabado, vem brilhar os raios quentes de um sol taciturno, meticulosamente cronometrado. E o símbolo cristão, posto ou infincado, pode inferir, aqui, um sinal macabro de adição umbrático.

Foto de Olício Dan.


Encontro nas letras um refúgio, nas palavras as identificações, nos sons a claridade dos meus pensamentos. Não estou sozinho, elas estão ali, paradas, encadernadas em um livro, em um texto fotocopiado, esperando o saborear das minhas miradas, a carícia morna do folhear dos meus dedos.

Entro em um mundo que aqui de fora está estático, mas ali dentro é revolto, é ventania e tempestade. Às vezes choro com elas, me emociono. Às vezes me dão alegria, ora reflexão. Confesso não entendê-las todas, mas o bom é descobri-las. O bom é, em um estalo, dizer: “é isso?”.

Não posso tentar resumir a vida, pois não tenho o seu acabamento, seria injusto enfraquecer o resumo se ao menos tenho a vivido, ora existido, apenas. 

Existo nas manhãs que me empurram para as obrigações civis, sinto-me mais vivo quando não tenho que me forçar a obedecer às convenções. Nado em pensamentos tortuosos revirando nas esquinas das respostas certas, das palavras desejadas, nas sentenças marcadas, das já estabelecidas.

Arranco espantos de ouvidos desatentos, prescrevo um universo delirante, com pausadas palavras em um tom de voz calmo, sorriu com elas e por elas. Animo meu corpo com uma falsa energia, que se esgota ao dobrar a esquina. Sofro pelo medo, da noite, do escuro, da violência.

Lembro-me em estar vazio e quando isso acontece recorro aos poetas, aos escritores. São pessoas eternizadas pelas palavras que me descrevem, são capazes de produzir em mim um discurso tão familiar, descritivo e preciso. “É isso que estou sentindo, poeta!”.

Ah, se não existissem as letras, os escritores, não haveria nada. Embora o Manoel dissesse um dia que a poesia sem nada não é. Nada não é nada. Por isso posso dizer que me encanta fazer nada.


A minha morada habita 4 pessoas, e um gatinho. A porta da cozinha há uma fechadura e 3 trincos. A porta da sala é difícil de fechar. O meu cotidiano é quente e as minhas noites veladas, por vezes, a pensar em nadas que me plantam sementinhas a germinar logo cedo, quando o sol aquece os muros do meu quintal.

O portal para uma visão otimista

Não sei vocês, mas encontro mais argumentos e atributos que me amparam para a visão de mundo mais otimista. É óbvio as notícias estarrecedoras, tristes e muitas vezes desmotivantes, possa gerar pessimismo, mas encontro nelas um pequeno fio de desenvolvimento. Pode parecer absurdo para alguns e soar inacreditável para outros, porém é só mais uma visão, não é necessária concordância.

Vivo em um mundo particular, um cotidiano cercado por estudantes universitários e tenho a maioria das minhas horas preenchidas por deveres acadêmicos, talvez por isso esteja inclinado a revelar um desejo de que esse privilégio se expanda a maioria de indivíduos possíveis. Acredito que nesse ambiente possa desenvolver e florescer mentes, e no mínimo dos casos, pessoas mais empáticas, solidárias e esclarecidas.

Os professores, dos quais escuto atentamente, são adultos pautados pela missão de apresentar os fatos e contextualizá-los, de gerar um interesse alinhado aos confrontos contemporâneos que são didaticamente interpretados em uma perspectiva histórica. Não estou fazendo apologia aos meus professores, apenas queria demonstrar o carinho que sinto por eles e a felicidade de reconhecer em seu trabalho, o grande contributo para a humanidade. São indivíduos dotados de um espírito educador, de uma “boca” falante, de um olhar complacente, de ralhas pertinentes e de um “ouvido” de ouvir, características humanas que, por mim, são admiráveis. Haverá pessoas que dirão: “Não é bem assim.”, mas o que é bem assim?

O que isso tem a ver com a minha visão otimista? São por meio deles que enxergo os fatos de uma maneira transformadora, motivadas por questões sociais inclinadas à reflexão e a mudança de comportamentos. Quando analisamos uma determinada disciplina, são eles que levantam a base, são os alicerces da construção de um pensamento. 

Eles leram antes, eles promovem o intercâmbio, tentam ensinar e muitas vezes conseguem. São humanos, têm suas vidas conflituosas como qualquer profissional, são aprendizes, amadores na arte de viver como qualquer outro. Mas fazem algo diferente, eles cuidam. Reflita sobre o cuidado, aqui não terá todas as respostas, mas pode ser um, de vários, caminhos a começar.

Como o todo é complexo, eles vão por partes. Como os estereótipos são visões limitadas e contada por uma só boca, eles vão desconstruindo. Eles não pedem que inventemos a roda, a pólvora, o fogo. Solicitam o exercício do estudo, da prática, da leitura, e que cada um tenha o mínimo para seguir a sua vida diferente de quando entrou naquele inicial contato.

Parece um texto meio sem nexo, pois não? Não importa muito, o óbvio é relativo.


O portal para uma visão otimista é construído com educação. Essa educação é formada por indivíduos como estes que acabo de mencionar. Obrigado por existir, ainda que a caminhada em sua formação e na condução da sua profissão seja muita vezes difícil, é admirável a sua persistência e luta diária. 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Comportamento

Não quero saber como as coisas se comportam.
Quero inventar comportamento para as coisas.
Li uma vez que a tarefa mais lídima da poesia é a 
de equivocar o sentido das palavras
Não havendo nenhum descomportamento nisso
senão que alguma experiência linguística.
Noto que às vezes sou desvirtuado a pássaros, que
sou desvirtuado em árvores, que sou desvirtuado 
para pedras.
Mas que essa mudança de comportamento genial
para animal vegetal ou pedral
É apenas um descomportamento semântico.
Se eu digo que grota é uma palavra apropriada para 
ventar nas pedras, 
Apenas faço o desvio da finalidade da grota que
não é a de ventar nas pedras.
Se digo que os passarinhos faziam paisagens na
minha infância,
É apenas um desvio das tarefas dos passarinhos que
não é a de fazer paisagens.
Mas isso é apenas um descompostamente linguístico que
não ofende a natureza dos passarinhos nem das grotas.
Mudo apenas os verbos e às vezes nem mudo.
Mudo os substantivos e às vezes nem mudo.
Se digo ainda que é mais feliz quem descobre o que não
presta do que quem descobre ouro - 
Penso que ainda assim não serei atingido pela bobagem,
Apenas eu não tenho polimentos de ancião.


(Poesia completa de Manoel de Barros, pág. 376 e 377).

Sobre Importâncias

Uma rã se achava importante
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois pois.
Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata
desterrada no canto de uma rua, talvez para um 
fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais
importante do que o esplendor do sol nos oceanos.
Pois Pois.
Em Roma, o que mais me chamou atenção foi um
prédio que ficava em frente das pombas.
O prédio era de estilo bizantino do século IX.
Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o
prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira 
dos Andes.
Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira
dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importância das
coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar nas
minhas palavras.


(Poesia completa de Manoel de Barros, pág. 388 e 389)

A Disfunção

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos

Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca dos parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 – Aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 – Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 – Percepção das contiguidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 – Gostar de fazer casamentos incestuosos entre
palavras.
5 – Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 – Mania de dar formato de canto às asperezas de
uma pedra.
7 – Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais
Importância aos passarinhos do que aos senadores.
 
(Poesia completa de Manoel de Barros, pág. 381 e 382)