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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O portal para uma visão otimista

Não sei vocês, mas encontro mais argumentos e atributos que me amparam para a visão de mundo mais otimista. É óbvio as notícias estarrecedoras, tristes e muitas vezes desmotivantes, possa gerar pessimismo, mas encontro nelas um pequeno fio de desenvolvimento. Pode parecer absurdo para alguns e soar inacreditável para outros, porém é só mais uma visão, não é necessária concordância.

Vivo em um mundo particular, um cotidiano cercado por estudantes universitários e tenho a maioria das minhas horas preenchidas por deveres acadêmicos, talvez por isso esteja inclinado a revelar um desejo de que esse privilégio se expanda a maioria de indivíduos possíveis. Acredito que nesse ambiente possa desenvolver e florescer mentes, e no mínimo dos casos, pessoas mais empáticas, solidárias e esclarecidas.

Os professores, dos quais escuto atentamente, são adultos pautados pela missão de apresentar os fatos e contextualizá-los, de gerar um interesse alinhado aos confrontos contemporâneos que são didaticamente interpretados em uma perspectiva histórica. Não estou fazendo apologia aos meus professores, apenas queria demonstrar o carinho que sinto por eles e a felicidade de reconhecer em seu trabalho, o grande contributo para a humanidade. São indivíduos dotados de um espírito educador, de uma “boca” falante, de um olhar complacente, de ralhas pertinentes e de um “ouvido” de ouvir, características humanas que, por mim, são admiráveis. Haverá pessoas que dirão: “Não é bem assim.”, mas o que é bem assim?

O que isso tem a ver com a minha visão otimista? São por meio deles que enxergo os fatos de uma maneira transformadora, motivadas por questões sociais inclinadas à reflexão e a mudança de comportamentos. Quando analisamos uma determinada disciplina, são eles que levantam a base, são os alicerces da construção de um pensamento. 

Eles leram antes, eles promovem o intercâmbio, tentam ensinar e muitas vezes conseguem. São humanos, têm suas vidas conflituosas como qualquer profissional, são aprendizes, amadores na arte de viver como qualquer outro. Mas fazem algo diferente, eles cuidam. Reflita sobre o cuidado, aqui não terá todas as respostas, mas pode ser um, de vários, caminhos a começar.

Como o todo é complexo, eles vão por partes. Como os estereótipos são visões limitadas e contada por uma só boca, eles vão desconstruindo. Eles não pedem que inventemos a roda, a pólvora, o fogo. Solicitam o exercício do estudo, da prática, da leitura, e que cada um tenha o mínimo para seguir a sua vida diferente de quando entrou naquele inicial contato.

Parece um texto meio sem nexo, pois não? Não importa muito, o óbvio é relativo.


O portal para uma visão otimista é construído com educação. Essa educação é formada por indivíduos como estes que acabo de mencionar. Obrigado por existir, ainda que a caminhada em sua formação e na condução da sua profissão seja muita vezes difícil, é admirável a sua persistência e luta diária. 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Comportamento

Não quero saber como as coisas se comportam.
Quero inventar comportamento para as coisas.
Li uma vez que a tarefa mais lídima da poesia é a 
de equivocar o sentido das palavras
Não havendo nenhum descomportamento nisso
senão que alguma experiência linguística.
Noto que às vezes sou desvirtuado a pássaros, que
sou desvirtuado em árvores, que sou desvirtuado 
para pedras.
Mas que essa mudança de comportamento genial
para animal vegetal ou pedral
É apenas um descomportamento semântico.
Se eu digo que grota é uma palavra apropriada para 
ventar nas pedras, 
Apenas faço o desvio da finalidade da grota que
não é a de ventar nas pedras.
Se digo que os passarinhos faziam paisagens na
minha infância,
É apenas um desvio das tarefas dos passarinhos que
não é a de fazer paisagens.
Mas isso é apenas um descompostamente linguístico que
não ofende a natureza dos passarinhos nem das grotas.
Mudo apenas os verbos e às vezes nem mudo.
Mudo os substantivos e às vezes nem mudo.
Se digo ainda que é mais feliz quem descobre o que não
presta do que quem descobre ouro - 
Penso que ainda assim não serei atingido pela bobagem,
Apenas eu não tenho polimentos de ancião.


(Poesia completa de Manoel de Barros, pág. 376 e 377).

Sobre Importâncias

Uma rã se achava importante
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois pois.
Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata
desterrada no canto de uma rua, talvez para um 
fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais
importante do que o esplendor do sol nos oceanos.
Pois Pois.
Em Roma, o que mais me chamou atenção foi um
prédio que ficava em frente das pombas.
O prédio era de estilo bizantino do século IX.
Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o
prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira 
dos Andes.
Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira
dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importância das
coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar nas
minhas palavras.


(Poesia completa de Manoel de Barros, pág. 388 e 389)

A Disfunção

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos

Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca dos parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 – Aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 – Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 – Percepção das contiguidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 – Gostar de fazer casamentos incestuosos entre
palavras.
5 – Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 – Mania de dar formato de canto às asperezas de
uma pedra.
7 – Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais
Importância aos passarinhos do que aos senadores.
 
(Poesia completa de Manoel de Barros, pág. 381 e 382)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Quem são eles? - Segundo ato

SEGUNDO ATO

Sala de professores. Duas cadeiras, uma na frente e outra atrás de uma mesa retangular de madeira. Um desenho de uma coruja com capelo afixado na parede também atrás da mesa. Na sala há um homem sentado em uma cadeira atrás da mesa corrigindo provas, fazendo anotações. Sozinho. – É começo da tarde.

CENA I
Alberto (Sapo Cururu), Fernando

Fernando – (bate a porta) Posso entrar?
Alberto – Entre!
Alberto (surpreso, levanta da cadeira e fica parado olhando para Fernando) – Pessoa?
Fernando (rindo) – Quem mais poderia ser? Trump? O pato Donald? (ambos caem na risada, se abraçam).
Alberto – Que surpresa! O que te traz aqui? (indica a cadeira a sua frente) sente-se!
Fernando (um pouco constrangido se senta) – Aberto, me desculpe aparecer assim, sem avisar. Mas estava passando por aqui e nem tinha pensando em encontrar você, mas pensei: Se o Alberto estiver ai, vou trocar umas palavrinhas com ele.
Alberto – Que coincidência! Justo hoje que estou de janela. Ah, você deve saber o que seja janela. Tanto tempo nessa atmosfera escolar que já adoto, sem saber o motivo, os chavões profissionais.
Fernando (sorrindo) – Não se preocupe, ainda me lembro o que é uma janela, (pausa) aquele espaço de tempo sem aulas que o professor tem para fazer outras obrigações, não é isso?
Alberto (sorrindo) – Exatamente. (Fecha o livro de anotações e organiza os papéis sobre a mesa e volta a olhar Fernando) O que te traz aqui meu amigo, depois de tanto tempo?
Fernando (constrangido) – Novamente me desculpe se tiver ocupado, posso voltar outra hora.
Alberto – De maneira nenhuma, aqui já está, e como eu disse, estou de janela. (coloca os papeis dentro da gaveta e continua a olhar Fernando)
Fernando – Preciso ouvir gente viva, conversar com gente viva!
Alberto (cauteloso) Que papo é esse Pessoa? Você está bem?
Fernando (olhando para a parede atrás de Alberto, vê um desenho de um sapo com um chapéu de professor e embaixo uma legenda: Sapo Cururu) – Sapo Cururu?
Alberto (surpreendido) O quê? (em seguida olha para trás e vê também o desenho afixado na parede)
Fernando – (sorrindo) O mesmo apelido que demos a você na época da faculdade, o que esse desenho faz ai?
Alberto (sorrindo) – Ah, foram os meus alunos. Contei a eles uma história da faculdade quando preparava a leitura do livro do Jorge Amado...
Fernando (interrompe) O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá?
Alberto – Exatamente. Contei a eles que Sapo Cururu era o meu apelido na faculdade, pois eu tinha o plano de me tornar crítico literário, (voz mais alta) “doutor em filosofia, catedrático de Linguística”, lembra-se dessa frase? (gargalhando).
Fernando – (rindo) Como haveria de esquecer? A Estrela sempre dizia isso. Eu imagino os outros ouvindo as nossas conversas, com as nossas cismas de chamarmos por apelidos estranhos. Um mundo que era tão restrito e comum a nós.
Alberto – Pois bem, contei aos adolescentes uma parte da história e me apelidaram de Sapo Cururu. É tão estranho ouvir outras vozes pronunciando esse apelido que me fora tão caro e ainda me traz recordações tão felizes. Mas bem, não foi para lembrar o passado que você veio aqui, foi?
Fernando – (sem jeito) Mais ou menos. Não sei muito bem por onde começar, mas gostaria de saber se você tem falado com a Estrela, o Pantanal ou com o Leitão?
Alberto (confuso) – Não. Faz tempo que não os vejo e tampouco falo com eles, a minha rotina é tão atribulada que nem tenho tempo de abrir o Facebook.
Fernando (ansioso) - Não estou perguntando se você fala com eles pelas redes sociais, pergunto se tem falado com eles por telefone, cartas ou pessoalmente.
Alberto (confuso) – Não. Você tem?
Fernando (envergonhado) – Também não. (pausa) por telefone não.
Alberto (confuso) – Não estou entendendo, Pessoa!
Fernando – Depois que você passou no concurso e veio para cá, eu continuei na universidade, acreditava em tantas coisas, mas meu pai morreu, minha mãe se apaixonou novamente e foi morar no campo, minha irmã se separou do seu marido e mudou de cidade. Bom... (pausa) muitas coisas aconteceram. Estou aqui há três semanas e a cidade parece pacata, aluguei um quarto próximo ao centro e tenho procurado emprego, enviado currículos. Tenho escrito para eles, há algum tempo e eles têm me respondido...
Alberto (interrompe subitamente e surpreso) – Sério? Que maravilha! Podemos marcar um jantar, quem sabe? Em casa, não sei, talvez...
Fernando (sem jeito) Sim, claro! (mudando de assunto) Como está a sua vida? Deve ser um pouco difícil ser professor hoje em dia.
Alberto (suspira) – Não é fácil, mas também não vou ficar enchendo você com os problemas burocráticos e os infortúnios diários. Deve se imaginar, estrutura precária, baixo salários, mas eu gosto de ser professor de literatura e como escreveu o Jorge Amado: “Temos olhos de ver e olhos de não ver, depende do estado do coração de cada um”. Portanto há dias que vejo diferente e outros que me proponho a imaginar.
Fernando (apressado) – Certo... Bom (fala pausadamente) Sapo Cururu (sorrindo) foi ótimo ter tido essa oportunidade de reencontrá-lo, mas imagino que você tenha muitas obrigações e eu tenho que voltar ao meu quartinho, amanhã tenho uma entrevista.
Alberto (surpreso) – Mas já? Você acabou de chegar, eu tenho tempo, aulas agora só amanhã.
Fernando (inquieto) – Realmente eu preciso ir. Como agora eu sei que você aqui está sempre, combinemos outro dia e tomamos um café, assim eu conto como estão os outros.
Alberto (conformado) – Entendido. Foi um prazer rever você, volte mesmo e boa sorte na entrevista, de que mesmo?
Fernando (cabisbaixo) – Contador de histórias.
Alberto (surpreso) – Contador de histórias? (percebendo a cara de insatisfação, muda o tom) Bom... Boa sorte meu amigo. Por favor, se precisar de algo, sabe onde me encontrar, venha sem pensar. (Busca uma caneta e um papel dentro da gaveta) Pessoa, me passa seu número de celular para eu ligar a você mais tarde.
Fernando (ansioso) – Não tenho celular ainda, mas quando eu comprar um novo eu passo sim. Venho à próxima semana, no horário da sua janela, tudo bem?
Alberto (respeitoso) – Ah, claro. Sem problemas. Até logo então. (se abraçam)
Fernando – Até (sai pela porta e a fecha).