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domingo, 3 de novembro de 2013

O importante é ser



Ele chegou suado, por correr daquela chuva torrencial. Seus sapatos estavam molhados, grudado ao corpo, o uniforme encharcado parecia mais uma segunda pele, mas nada parecia embaçar aquele seu sorriso. Tirou as botinas, suas meias enlameadas e entrou em casa. Tomou banho, ajeitou o cabelo, vestiu seu jeans, uma camiseta de manga curta vermelha e se abrigou abaixo do guarda-chuva, para sair novamente à rua.
Naquela noite ele estava atento a toda a iluminação pública, as janelas do bairro, ora fechadas com cortinas enfeitadas por fitas e enfeites de pinheiro e azevinho, ora abertas com o peitoril exibindo presépios e pequenas velas de natal, casinhas iluminadas. Os pisca-piscas não faltavam, era de sua responsabilidade dar o charme para aquela época do ano. Aquilo o enchia de alegria, voltou a ser menino, era natal. Tocou a campanhia e aguardou, foi recebido com um grande sorriso por uma senhora de cabelos grisalhos curtos, entrou pedindo licença.
- Estou feliz por ter aceito o meu convite, Emanuel.
- Estou feliz por ter me convidado, Clarice.
A pequena casa estava iluminada por velas de mesa. Uma árvore de natal de um pouco mais de um metro iluminava a sala dando um ar de achonchego e paz. Clarice ouvia Vivaldi em uma vitrola de madeira.
- Sente-se, fique à vontade, vou buscar uma taça de vinho para você. Enquanto isso você poderia colocar esse disco que está sobre a mesa? Adoro as músicas dele, é uma noite para desfrutarmos suas canções.
- Claro!
Ele pegou o vinil das mais lindas canções de natal, ergueu a agulha da vitrola, trocou o disco, e começou alí jingle bells.
- Espero que o peru esteja saboroso, - ela disse sorrindo. Testei uma nova receita com ervas frescas, acredito que você vai gostar bastante.
Sentaram-se a mesa e comeram. Depois do cafezinho, ele retirou os pratos, colocou-os sobre a pia e se juntou a ela para voltarem a conversar.
- Como foi o seu dia? Ainda tralhando no jardim da Carmen?
- Terminei hoje, ficou muito bonito, sai de lá correndo e fui surpreendido no caminho por aquela chuva, mas nada que um banho quente e esse convite não me fizesse feliz novamente.
Ela sorriu timidamente e continuou: - É evidente o seu cuidado e o seu gosto por aquilo que você faz tão bem, com a sua ajuda eu consigo ter um jardim organizado e uma horta sempre bem cuidada. Mas me conte, onde está a sua família?
Ele ficou meio sem jeito com o elogio e surpreso por uma pergunta tão pessoal, mas estava tão à vontade e respondeu tranquilamente: - Desconheço onde vivem, na verdade não sei se tenho uma família, como todo mundo. Nasci em um orfanato e aprendi o ofício de jardineiro lá, gosto de cuidar da terra, de fazê-la produzir, isso me enche de alegria, trabalhar para mim é uma motivação. E você, Clarice, tem algum motivo por viver aqui, sozinha? Onde está a sua família?
Clarice se supreendeu com a pergunta, ergueu suas sobrancelhas, respirou e após uma pequena pausa respondeu: - Ah, jovem! Às vezes isso acontece, as coisas mudam, tudo que você acredita se vai e você tem que estar preparado para entender que nada é para sempre e o que o faz continuar é a sua vontade de viver e a sensação de produzir, de se sentir vivo. Eu vivo sozinha, mas não me sinto solitária, pois encontrei aqui um refúgio, um recanto de paz. Admiro você pela sua simplicidade e a maneira como você conduz a sua vida, você vai perceber que isso é fudamental. Com o tempo você vai perceber o essencial para estar feliz não é a sua posição social, seus bens materiais, as reuniões sociais, afinal você encontra a felicidade diariamente, se tiver tempo para percebê-la. Estar feliz é ter autoconhecimento, é saber o que te motiva, você será completo quando se conhecer, quando o importante é ser e não ter.
Ele a ouvia atentamente e quando deu meia noite, ela pediu licença, se levantou, pegou um embrulho que estava embaixo da árvore e disse:
- Emanuel, esse é seu presente!
Ele, emocionado, sorriu, a abraçou e agradeceu: - Muito obrigado Clarice, sinto em não ter nada a oferecer.
Ela sorriu novamente, o olhou nos olhos e disse: - Querido, você me presenteia sempre, o seu sorriso, a sua educação, seu cuidado e a sua amizade, são presentes cotidianos, é a essência do ser, se lembra?
Os dois sorriram juntos e aquela noite de natal foi espetacular para ambos que fortaleceram os laços de amizade em uma noite muito propícia.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Como eu me lembro dela




Sabe aquelas pessoas de quem você chega perto e se sente bem? Que desconhece e logo vira amigo e começa uma conversa entre risadas e quando vê já amanheceu? Talvez você já tenha tido alguma experiência assim, pois é, ela era assim. Cabelos castanhos curtos, com lóbulo colado e marcada por cicatrizes de acnes que adquiriu na adolescência. Seu sorriso era espontanêo e verdadeiro, tinha uma pinta na perna esquerda e suas sobrancelhas eram ralas, seus olhos miúdos e sua boca, hmmm... apetecedora. 

Gostava de gérberas e lantanas, seu perfume era frutal e não media mais que um metro e setenta. Conheci Jesse & Joy, Julieta Venegas, Bensé, Yiruma, Alexander Rybak e tantos outros cantores através do seu fone de ouvido. Descobri, que A festa de Babette,  Immortal beloved, Big Fish, Miss Potter e Orgulho e Preconceito estavam entre seus filmes favoritos. Aprendeu tocar violino, porque se apaixonou pelo protagonista Andrea de Ladies in Lavender. 

Tomava café sem açúcar e gostava de suco de caju, quando ofereciam doces a ela, pegava apenas um pedacinho, comia rápido e agradecia com um sorriso. A ouvi dizer que um quarto organizado com cheiro de lavanda, lençois e fronhas perfumadas com amaciante, pijama liso sem estampa a faziam feliz. 

A última vez em que a vi era manhã de sol, vestia uma calça jeans azul, um sapato preto e uma camiseta básica branca, estava com seus olhos úmidos, porque o rímel que usava estava borrando seus olhos tristes. Cumprimentei-a com um bom dia e perguntei se estava tudo bem, ela sorriu com o canto da boca e disse, quase sussurrando: “agora sim”. Foi o último dia que a vi. Ela deixou as lantanas, que plantara na entrada do prédio solitárias, e no meu coração um vazio que até hoje não foi preenchido.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Setembro compartilhado





Espero que esse mês se vá, carregando com ele essa saudade que ainda me anima, sinto como se ela fosse uma pequena menina, com mãos delicadas, estamos de mãos dadas, mas os dedos se afastam... Isso é maravilhoso, não? Está passando...

Ainda que tivemos uma história, ela ficará no passado, nos meses que antecederam a primavera, e a vida seguirá. Eu a escreverei em uma folha branca, sentado no sofá ouvindo a chuva, com o caderno recheado de lembranças. Por aqui chove pouco, mas parece um preságio de boas novas, aquelas que eu construirei com tudo que aprendi.

Ouço o barulho da chuva fina que cai lá fora, molhando telhados, folhas secas e flores soltas. É fim de setembro e espero que a água lave os restos da dor que ficou em mim, de um ano meio morto que finalmente se renova. Mas há coisas que nunca mudam. Cá estou eu, ainda, em meio a amores que me machucam dizendo palavras delicadas, a histórias que me arrastam em meio a um turbilhão do qual somente eu me vitimizo. E em meio ao silêncio entrecortado pelo vento, tomo a liberdade de me sentir tocado por coisas que não foram feitas para mim, e me deixam com um gosto amargo e doce n’alma.

domingo, 29 de setembro de 2013

Canções torpes


É madrugada de terça-feira e ainda sem sono, penso em você. Sim, é inevitável, brota em um instante o seu sorriso na minha mente e nos segundos seguintes meu sorriso também aparece. Ontem eu ouvi aquela música sem chorar. Tudo bem; confesso, fiquei saudoso, melancólico, pensativo, em silêncio, até ela terminar. Qual música? Ué! Aquela que decidimos ser nossa, que agora é apenas minha, porque você não está. Fui pego de surpresa, queria pedir para desligar o som, mas quem sou eu para impedir que ela tocasse o coração de outros apaixonados. Uma música bobinha, mas quem tem o poder de julgar uma canção que nunca teve um significado? As músicas são perfeitas para fazer isso, transformar seu sentimento em melodia. O estranho ou o natural disso tudo, desse turbilhão de sensações que sinto, é que ainda penso em como eu gostaria que fôssemos, usávamos os verbos conjugados no futuro e eu agora os conjugo no passado.
Sim, dói um pouco, mas logo passa. Como escreveu o escritor Caio Fernando, "vai passar não minto", mas sinceramente, desejaria que você cantasse Vambora da Adriana Calcanhoto. Apesar dessas reflexões eu acho que está passando, e essa sua ausência está me fazendo bem, já não mais encontro você nos meus sonhos e as noites têm sido mais calmas, ainda que continue escrevendo sobre você, porém, isso deve ser natural. No silêncio, finjo ser forte e me refugio na leitura como escudo emocional. Tenho pensado menos em você e espero que o tempo cuide dessas minhas esperanças ilusórias. A curiosidade me toca quando beira às dez e penso no que você está fazendo, no que ocupa seus pensamentos. Talvez apenas o trabalho ou um novo amor brotando em um solo do qual fui removido. Cumpro os afazeres cotidianos por obrigação, e sigo respeitando o seu silêncio como forma de agradecimento por me tornar tão sentimental. Embora gostaria que fosse diferente, que você me ligasse, que me fizesse suspirar novamente, porém compreendo, nada me fará esquecer que gostava de como você reagia às minhas cócegas, da comunicação graciosa do seu sorriso com os meus lábios, do meu olhar a encontrar você. Aquele brilho está aqui, um pouco apagado, mas vivo, belo e adormecido. Racionalmente já não consigo te descrever com adjetivos de coragem, astúcia, verdade, sinceridade, qualidades que lhe serviam tão bem, no entanto, agora, seria incapaz de usá-los para tal fim. Continue assim, longe de mim, até que esse sentimento evapore, liberte-se e eu consiga ouvir novamente essas canções torpes sem pensar em você.